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13 de setembro de 2018

Depois de Lepanto, espanhóis e otomanos chegaram a um tratado em 1580 que reconheceu um impasse entre dois impérios e dois mundos. A partir desse momento, a fronteira diagonal que percorria o cumprimento do Mediterrâneo, entre Istambul e os portões de Gibraltar, endureceu.

Os concorrentes deram as costas um para o outro; os otomanos lutaram contra os safávidas e mais tarde enfrentaram o desafio da Hungria e do Danúbio na Grande Guerra Turca; enquanto a Espanha assumiu a disputa no Atlântico. Depois da anexação de Portugal, Felipe II olhou para o Ocidente e simbolicamente mudou sua corte para Lisboa, para enfrentar um mar maior. Ele tinha sua própria Lepanto ainda por vir — o naufrágio da Armada espanhola na costa da Grã-Bretanha, mais uma consequência do hábito espanhol de navegar muito tarde no ano.

Nos anos pós-1580, o Islã e a cristandade se desembaraçaram no Mediterrâneo: um se tornou gradualmente mais introvertido; o outro, mais explorador. O poder começou a oscilar para longe da bacia do Mediterrâneo, em formas que os otomanos e os Habsburgos, com suas pesadas burocracias centralizadas e sua crença no direito divino, não poderiam prever. Foram os marinheiros protestantes de Londres e Amsterdã, com seus navios robustos financiados por uma classe média empreendedora, que começaram a evocar a riqueza dos novos mundos.

O Mediterrâneo das galés a remo se tornaria um remanso, contornado por novas formas de império. A vida — e morte — do cartógrafo Piri Reis simbolizou a oportunidade perdida dos otomanos de se voltar para fora e explorar o mundo empírico. Um cartógrafo otomano anônimo, que escrevia na década de 1580, cristalizou a consciência da ameaça que as novas viagens às Índias trariam: “É na verdade um fato estranho e um caso triste que um grupo de incrédulos impuros tenha se tornado forte a ponto de viajar do oeste para o leste enfrentando a violência dos ventos e as calamidades do mar, enquanto o Império Otomano, que está situado na metade da distância em relação a eles, não tenha feito nenhuma tentativa de conquistar [as Índias]: isso, apesar do fato de que as viagens produzem inúmeros benefícios, [trazendo de volta] objetos e artigos de luxo desejáveis, cuja descrição excede os limites do descritível e do explicável”.

E, finalmente, a Espanha também seria sobrepujada, mergulhada em longos conflitos com seus vizinhos cristãos que jamais aceitaram sua liderança, seja ela temporal, ou espiritual. Também depois de 1580, os corsários do Mediterrâneo abandonaram a causa do sultão e voltaram por conta própria para as margens áridas do Magrebe. O Mediterrâneo enfrentaria mais 200 anos terríveis de pirataria endêmica, que despejaria milhões de escravos brancos nos mercados de escravos de Argel e Trípoli. Veneza e os otomanos, permanentemente bloqueados no mar sem marés, disputariam as costas da Grécia até 1719, mas o poder tinha ido, havia muito tempo, para outro lugar.

Impérios do Mar, de Roger Crowley