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30 de setembro de 2018

A capacidade europeia de organizar e manter operações comerciais em escala global dependia, em parcela nada pequena, das novas tecnologias que acompanhavam o comércio marítimo. Em 1620, o polímata inglês Francis Bacon escolheu citar três “descobertas mecânicas” que, em sua opinião, “mudaram todo o aspecto e o estado das coisas no mundo inteiro”.

Uma delas foi a bússola, que permitiu aos navegadores singrar os mares sem terra à vista e mesmo assim saber onde estavam. Outra foi o papel, que permitiu aos mercadores manter a contabilidade detalhada necessária às várias transações e manter a correspondência intensa que o comércio de longa distância exige. A terceira descoberta foi a pólvora.

Sem o aperfeiçoamento rápido da tecnologia balística realizado pelos fabricantes de armas do século XVI e XVII, os comerciantes europeus no exterior teriam dificuldade para superar a oposição local aos arranjos comerciais indesejados e para proteger a pilhagem do comércio. A VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) aproveitou-se das três inovações para construir uma rede comercial que se estendia até a Ásia oriental. “Nenhum império, nenhuma seita, nenhuma estrela”, afirmou Bacon, “parece ter exercido maior poder e influência sobre os assuntos humanos” do que essas três invenções.

Bacon, que, notoriamente, não sabia da origem chinesa dessas três descobertas, observou que tinham origem “obscura e inglória”. Se lhe dissessem que a origem era chinesa, não ficaria surpreso. Graças às extravagantes descrições de Marco Polo de suas viagens pela corte mongol no final do século XIV, a China ocupava um grande espaço na imaginação popular. Os europeus pensavam nela como um lugar de poder e riqueza superior a todas as possibilidades conhecidas.

Essa ideia levou muitos a acreditar que a rota mais rápida para China também seria a rota mais rápida para sua própria riqueza e poder, e a buscar essa rota. A busca para chegar à China foi uma empreitada implacável que muito colaborou para configurar a história do século XVII, não só na Europa e na China, mas na maioria dos lugares entre as duas.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook