#623

4 de outubro de 2018

Uma ou duas visitas sérias chegaram para interromper a diversão e os jogos de Cristina em Antuérpia. Klaes Tott viera de Estocolmo, com um convite de Carlos Gustavo, para a rainha voltar para casa. O amor e a lealdade haviam motivado o convite do novo rei, pois nada tinha a ganhar com o retorno de Cristina, além de sua própria companhia imprevisível que causava.

Um recém-designado enviado holandês aparecera, também, para fazer uma visita de cortesia enquanto estava a caminho da Suécia. Os holandeses haviam concluído recentemente sua guerra (entre 1652 e 1654) com a nova república inglesa de Oliver Cromwell, e os dois conversaram um pouco sobre isso, a rainha perguntando ao enviado se ele não achara estranho “cortarem a cabeça do rei da Inglaterra”. O holandês respondeu que, na verdade, achara muito estranho realmente, mas ela discordou, dizendo que “eles lhe haviam cortado um membro, do qual ele se servira muito pouco, ou muito mal”. Parecia que a traição, como a saúde, era uma questão de atitude.

De repente, um dos mais envolventes traidores do continente estava de fato agora diante de sua porta, e ávido por fazer-lhe uma visita. Luís de Bourbon, duc d’Enghien, príncipe de Condé — Le Grand Condé —, o herói francês que derrotara os espanhóis em Rocroi, acabara de chegar a cidade.

Diante do terror dos exércitos espanhóis, passara então a conspirar em seu próprio país. Encarcerado, depois libertado, liderara os “príncipes da Fronda” contra o cardeal Mazarin e marchara até Paris, antes de fugir para trabalhar sob os espanhóis em guerra contra seu próprio país. Apenas cinco anos mais velho do que Cristina, seus louvores lhe haviam sido cantados nos ouvidos muito antes pelo outrora médico dela, e dele, o Dr. Bourdelot. Ela idolatrava aquele jovem Marte, e enviou-lhe um rápido convite. Foi recebido por uma mão pronta. “Quero ver por mim mesmo esta princesa que pode largar mão de uma coroa”, disse Condé, “enquanto o resto de nós passa toda a vida correndo atrás de uma”.

Mas dois obstáculos interpuseram-se no caminho do príncipe. O primeiro foi Pimentel, um visitante freqüente da rainha, que desconfiou de Condé e tentou enfraquecê-lo. O segundo ainda menos dócil, foi o próprio orgulho do príncipe, que exigiu que lhe prestassem cortesias régias na pequena corte da rainha sueca. Cristina não concordou. Embora o houvesse convidado, ele não tinha direito a um assento próprio, ela declarou; teria de sentar-se num tamborete (inferior a Cristina).

O príncipe se recusou a fazê-lo, mensageiros apressados correndo de um lado para outro, e por fim ele apareceu numa visita privada, não exigindo sequer quaisquer formalidades. Cristina manteve-o em pé, de qualquer modo, e depois disso seu entusiasmo mútuo estranhamente logo esfriou.

Cristina Alexandra, de Veronica Buckley