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21 de outubro de 2018

Apesar do estado precário das forças de defesa de sua nação, o vigoroso príncipe Guilherme de Orange, de 22 anos, recentemente designado capitão-general, tinha conseguido formar pela força de um exército holandês de 20 mil homens.

Tendo cavado trincheiras e levantado muros de defesa, eles agora esperavam em Ijseel, na margem sul do Reno, em território holandês; sob a liderança de Condé, os franceses apressavam-se em sua direção. Mas no vau de Tolhuis, Condé inesperadamente desviou seu exército para a margem norte do rio, que ficava em território alemão, perto do forte de Schenk, com isso evitando o jovem príncipe e suas tropas. Um pequeno grupo de holandeses, escondidos atrás de sebes, atacou-os do outro lado, e embora o próprio Condé ficasse gravemente ferido, os franceses tiveram poucas baixas.

Condé, na verdade, tinha atravessado o rio em um barco, e o rei estava a quilômetros de distância, em Doesburg, mas um punhado de jovens cavaleiros inexperientes tinha se lançado com empolgação nas águas em seus cavalos, e embora a maioria deles tivesse perdido sua vida, o drama era perfeito para ser explorado. A travessia do Reno imediatamente ganhou status de lenda na França, transformando-se em tema de inúmeras pinturas e tapeçarias, exaltando as proezas de guerra do recém-aclamado Luis le Grand. “Não consigo entender como eles conseguiram atravessar o Reno a nado”, escreveu madame de Sévigné, ofegante, a uma prima, cinco dias depois do grande evento. “Mergulhar no rio sobre os cavalos, como cães caçando um veado, e não se afogar, ou ser morto ao chegar do outro lado […] fico tonta só de pensar”.

Em Viena, o Sacro Imperador Romando Leopoldo I também ficou tonto só de pensar, e seu choque misturou-se à indignação. Embora tivesse concordado em permanecer neutro em qualquer conflito franco-holandês, ele agora via essa travessia francesa no Reno como um ato de agressão a seu próprio território imperial. Abandonando a promessa de neutralidade, decidiu apoiar os holandeses, que já estavam buscando quem estivesse disposto a juntar-se a eles para expulsar os franceses dos Países Baixos e voltar para seu país. Encontraram um fraco aliado no primo Habsburgo de Leopoldo, o rei Carlos II da Espanha, e mais forte apoio no “Grande Eleitor” Frederico Guilherme II, do nascente estado prussiano de Brandemburgo.

Mas a coalizão estava sendo preparada havia meses e nesse meio-tempo os franceses faziam um progresso inquietantemente rápido. Uma vez na margem norte, eles avançaram ao longo do rio, tomando todas as cidades ribeirinhas, e finalmente Arhem, onde Condé, envolto de bandagens e frustrações, ficou para se recuperar. Agora, parecia não haver nada que impedisse os franceses de marchar sobre Utrecht e daí para os inestimáveis cais e depósitos, comércios e casas bancárias da indefesa Amsterdã.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley