#640

3 de novembro de 2018

Os homens de Drake, ao navegarem pela costa do Chile, ficavam indignados, porém não surpresos, ao verem espanhóis a cavalo com índios “correndo como cães atrás deles, completamente nus e na mais abominável servidão”. Ouviam histórias de espanhóis que torturavam seus escravos índios, jogando sobre eles gordura quente e chicoteando-os para satisfazer seu próprio prazer sádico. Ali Babá apossava-se à vontade dos tesouros que ia encontrando e ninguém o culpava por isso, posto que as vítimas de suas ladroagens eram também ladrões. Assim também era Drake saqueou sem escrúpulos os espanhóis, porque estes eram, pelo menos a seu ver, saqueadores.

Apossar-se do que pertencia à Espanha católica, pois, não era apenas algo permissível; podia até mesmo ser considerado um ato de fé protestante. A dissolução dos mosteiros ingleses formou o cenário da infância de Drake. Ele cresceu em uma sociedade na qual o confisco de propriedades de instituições católicas era ação não apenas aceitável como perpetrada com entusiasmo pela autoridade estabelecida. Ele não era, pelos padrões de sua época, um protestante fanático: certa vez ele disse a um marinheiro católico galês que “Deus aceitaria de bom grado uma boa ação sua, quer segundo a lei de Roma, quer a da Inglaterra”. Porém o protestantismo foi um aspecto essencial de sua identidade.

Os espanhóis chamavam-no “El Luterano” tanto quanto “El Corsario”. Quando no mar, ele dedicava duas a três horas todos os dias a orar ou a fazer com que seus homens orassem; e quando tinha prisioneiros espanhóis a bordo, fazia questão de sua presença aos serviços religiosos. Ás vezes era ele mesmo quem pregava, quando exibia seu exemplar do livro de John Foxe, mais conhecido como o Livro dos Mártires. Drake mantinha correspondência amistosa com Foxe, cujo o livro, um relato hediondo e violentamente anti-católico de execuções de protestantes durante o reinado de Maria I, foi imensamente influente: um exemplar do livro era preso por uma corrente ao lado da Bíblia em todas as igrejas anglicanas. Ele provavelmente ajudou a convencer Drake de que aqueles a quem ele destituía de suas posses eram mais do que merecedores de quaisquer castigos que ele lhes pudesse infligir.

Portanto, ao navegar pelo Pacífico rumo ao norte tornando-se cada vez mais rico, ele estava vingando os nativos americanos espoliados, servindo a seu país e a seu Deus protestante. Havia penetrado em uma espécie de limbo moral, em uma terra imaginária onde o roubo, desde que as vítimas fossem espanhóis, deixava de ser crime, e onde nada do que um inglês fizesse seria errado.

Heróis, de Lucy Hughes-Hallett