#642

6 de novembro de 2018

A Paz de Vestfália, de 1648, que, por convenção, marca surgimento do sistema estatal moderno, envolveu vários tratados que deram fim às guerras prolongadas entre os novos Estados poderosos que competiam pela cisão entre o catolicismo e o protestantismo, como a Guerra dos Oitenta Anos entre Espanha e os Países Baixos (uma das que proibiram os holandeses de entrar no porto de Manila). O novo sistema criou normas de soberania do Estado que são consideradas como base da ordem mundial de hoje: os Estados são atores fundamentais de um sistema mundial, cada um goza de soberania inviolável e nenhum tem o direito de intervir nos demais assuntos de outro. Os Estados não eram mais domínios de monarcas, e sim entidades públicas que concentravam e aplicavam os recursos com fins nacionais.

Os Estados que chegaram ao poder global depois de Vestfália estavam todos em condições de se aproveitar do comércio global, nenhum deles mais do que a República Holandesa, com a sua série poderosa de empresas monopolistas bem regulamentadas. Porém, em um mundo predatório, a riqueza e o poder da Holanda não foram nem conquistados, nem mantidos sem lutas. Conforme a república conquistava sua prosperidade, a inveja e a ganância de seus dois vizinhos mais poderosos, Inglaterra e França, também cresciam.

Cobiçando o quase-monopólio holandês do comércio europeu, os ingleses — tanto sob o comando de Oliver Cromwell quanto de Carlos II — atacaram a Holanda, provocando três guerras navais entre os dois países. Nessas guerras marinhas entre dois povos navegadores, os holandeses iam além de simplesmente resistir. Liderados por dois impressionantes almirantes, Tromp e Ruyter, guiaram seus navios de guerra menores e de bico arredondado contra os ingleses com tamanha bravura e habilidade que a Holanda se tornou a única nação a derrotar a Marinha Britânica com frequência.

Ainda sim, no final do século, os holandeses estavam sendo ultrapassados pelos ingleses como maior potência comercial global. Há muitas razões para que esse eclipse, entre os quais a invasão francesa dos Países Baixos em 1672. Invejosos do comércio marítimo holandês, os franceses despacharam para os Países Baixos um exército terrestre muito maior do que os holandeses poderiam reunir. A última defesa holandesa foi abrir os diques, mas foi uma vitória de custo muito elevado da qual a República nunca conseguiu se recuperar totalmente.

Essa derrota ajudou a abrir a porta da expansão imperial britânica, permitindo à Grã-Bretanha superar os Países Baixos como potência comercial global dominante no século XVIII.

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook