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8 de novembro de 2018

As guerras da Holanda contra a Inglaterra se deram no mar e nas colônias. Uma ameaça muito mais mortal para a Holanda viria pela terra. Para os homens reunidos em volta de Luís XIV em Versalhes, o sucesso da pequena república protestante era uma afronta à grandeza da França, um pecado contra sua religião e, mais importante, uma barreira e um concorrente no comércio.

O rei e seu ministro das finanças, Colbert, e seu ministro da guerra Louvois, se uniram no desejo de derrotar os notáveis arrivistas holandeses. Em 1672, com o maior e melhor exército da história da Europa Ocidental e o Rei Sol pessoalmente no comando, a França seguiu pelo Reno até os campanários de Amsterdã estarem ao alcance da vista. A Holanda estava derrotada… Ou derrotada estaria não fosse pelo surgimento na História de uma das figuras mais extraordinárias do século XVII, Guilherme de Orange.

Na primeira semana depois de assumir o comando, Guilherme se viu forçado a tomar uma terrível decisão. Apesar dos esforços, seu exército não conseguia enfrentar os franceses, que avançavam rapidamente a caminho do coração dos Países Baixos. Arnhem caiu, assim como Utrecht, a apenas 35 km de Amsterdã. Então, quando os franceses estavam a apenas um dia de marchar do maior porto da Europa, os holandeses obedeceram a ordem de Guilherme e abriram os diques.

O mar invadiu a Holanda, inundando plantações e campos, engolindo ricas casas e jardins, afogando gado e porcos e desfazendo o trabalho de muitas gerações. Conforme os soldados abriram as comportas e diques, fazendeiros desesperados e contrários a verem suas fazendas desaparecerem debaixo das águas que se aproximavam lutaram para impedi-los. Amsterdã, até agora quase indefesa, tornava-se uma ilha. Sem barcos, os franceses só podiam encarar a cidade de longe.

Para desgosto de Luís, embora o exército da Holanda estivesse derrotado e metade do país inundado, Guilherme recusava-se a se render. Os batalhões holandeses, incapazes de derrotar os franceses (cujo grupo era muito mais numeroso), permaneceram à espera no campo de batalha. Condé se estabeleceu em alojamentos de inverno em Utrecht, na esperança de que, quando o inverno chegasse, pudesse atacar Amsterdã com a ajuda do gelo. No entanto, o inverno foi ameno, e Luís, que nunca gostava de ver exércitos franceses trabalharem longe da França, ficou nervoso.

Enquanto isso, Guilherme havia estado diplomaticamente ativo. Ele apontou ao império Habsburgo, a Brandemburgo, Hanover, Dinamarca e Espanha que o poder e a ambição de Luís eram uma ameaça não apenas para a Holanda, mas também para os demais Estados. Na primavera, a guerra expandiu. O pequeno exército de Guilherme começou a atacar as linhas de comunicação francesas e Luis ficou ainda mais nervoso. Por fim, sistematicamente destruindo as cidades que haviam ocupado, os franceses recuaram.

Essa vitória parcial — a sobrevivência da Holanda — era uma conquista quase unicamente do soldado estadista de 21 anos que, naqueles poucos meses, tornou-se o segundo líder nacional mais importante da Europa.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie