#646

13 de novembro de 2018

Apesar do interesse gerado pelos grandes desbravadores da ciência do fim do século XVI e início do século XVII — Galileu, Bacon, Harvey, Kepler, Brahe e outros —, os trabalhos deles eram fragmentados, de forma que o efeito imediato das intermináveis experiências, dissecações, observações e análises geraram mais confusão do que clareza. Os resultados não se encaixavam na estrutura do conhecimento que estava vigente havia quatrocentos anos.

Era impossível usar os antigos escritores para explicar as novidades e, na verdade, os resultados ameaçavam corroer os pilares que sustentavam as construções de sentido. É difícil para nós avaliarmos o que isso significou à época, em grande parte porque, como uma consequência direta do trabalho desses homens, vivemos em um mundo com mais de um sistema de sentido. É claro que agora também há fundamentalismos, mas mesmo os fundamentalistas atuais têm de conviver com a consciência do relativismo; eles sabem que existem outras crenças, apesar de terem certeza de que os sistemas diferentes dos seus estão errados.

No século XVII, foram tão radicais e desorientadoras as mudanças naquilo que se considerava um sistema absoluto de valores e verdades que pessoas de todos os recortes sociais, de papas até gente simplesmente educada o suficiente para ler os panfletos que denunciavam a confusão, consideravam a situação como uma crise. E nenhuma crise é mais profunda do que as crises da crença.

Então, em 1637, surgiu um livro nas ruas de Paris, Roma, Amsterdã e Londres. Na capa, havia a gravura de um homem barbudo, vestido com uma túnica e calças, cavando em um jardim — o investigador da verdade filosófica nos trajes de um humilde trabalhador? —, acima do qual aparecia o título completo, escrito não em latim, mas em francês, de forma que pudesse ser lido, conforme o autor esclarecia, por pessoas leigas (pelo menos, por pessoas leigas francesas), incluindo, com certo toque de escândalo, até mesmo as mulheres: Discurso sobre o método, para bem conduzir a razão e buscar a verdade nas ciências. Mais Dióptrica, Meteoros e Geometria, que são os ensaios deste Método.

A capa também mostrava o local da publicação, a cidade holandesa de Leiden, e o nome do editor, Jan Maire, na época um desconhecido, mas que se tornou famoso devido à publicação desse volume. A edição foi de 3 mil cópias; e esse viria a se tornar um dos livros de maior influência de todos os tempos.

Foi ostensivamente omitido o nome do autor, que, previamente, observara que preferia manter-se “oculto por trás da cena para poder ouvir o que se dizia”. Mas a autoria do Discurso sobre o método, ou Discurso do método, como o livro ficou conhecido, foi reconhecida quase que imediatamente: René Descartes.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto