#648

17 de novembro de 2018

Na lenda que envolveu as aventuras de Drake, que não demorou a surgir, o Golden Hind aparece comoventemente pequenino, vulnerável e isolado, sozinho e sem qualquer apoio no avesso do mundo; mas para aqueles que defendiam os pequenos portos nos quais entrava, ele era temível.

Diferente dos navios espanhóis que por ali navegavam, desprovidos de artilharia pesada, o Golden Hind tinha 18 canhões, sendo três de bronze e os demais de ferro fundido. Não havia no Pacífico um único navio de guerra comparável a ele. Quando Drake entrava nos portos, as autoridades espanholas corriam a se esconder na mata. Quando abordava um navio, a tripulação mantinha-se humildemente à parte enquanto seus homens procuravam o que havia de valor.

Em Mormorena ele aterrorizou os dois únicos funcionários do governo espanhol a fim de poder obter provisões junto aos navios. Em Callao ele encontrou uma grande quantidade de barcos espanhóis ancorados e indefesos. Drake vasculhou os barcos um a um, cortou suas amarras e partiu os mastros de alguns deles a machadadas antes que o alarme fosse dado. Quando notícias dessa depredação chegaram a Lima, o vice-rei enviou duzentos homens a cavalo para repelir o ataque, mas quando eles lá chegaram Drake já havia zarpado. Trezentos homens foram então enviados ao seu encalço em dois navios, porém o Golden Hind facilmente distanciou-se e os espanhóis deram meia-volta, desapontados e terrivelmente mareados.

Algum tempo depois, na Inglaterra, um nobre inglês que, como a maioria dos cortesãos, considerava Drake um fanfarrão cansativo, comentou acidamente que não era grande proeza capturar um navio indefeso com outro bem armado. O tom de despeito justifica-se perfeitamente, mas é exatamente essa facilidade quase mágica com a qual Drake atingia seus objetivos que constitui a mística dessa viagem e de seu comandante.

A boa sorte só chega assim tão sorridente para pessoas excepcionais, divinamente predestinadas. O mar Vermelho se abriu diante do povo de Israel por serem eles os escolhidos de Deus. Aquiles foi capaz de matar uma quantidade tão grande de seus opositores por que tinha uma invulnerabilidade divinamente concedida, uma armadura divinamente forjada, o status de guerreiro supremo divinamente outorgado. El Cid, “nascido em boa hora”, conquistou cidades e cobrou resgate por seus reis, e seu sucesso aparentemente sem esforço foi, por si só, uma demonstração de sua grandeza.

A confiança em si é a marca daquele que nasceu para vencer, e a vitória fácil é prerrogativa dos super-homens. Assim Drake, ao inutilizar, à gargalhadas, os navios espanhóis, ao saquear suas cidades e ao apossar-se de seus tesouros, tem algo de mágico e irresistível que é o sinal inequívoco — nos seus mitos, nos contos de fada e nas histórias populares — do herói feliz.

Heróis, de Lucy Hughes-Hallett