#649

18 de novembro de 2018

Muitos imperialistas europeus acreditavam sinceramente que ao submeter outros povos a seu jugo eles os estavam libertando — de outros opressores ou de sua própria ignorância e atraso. O pirata Drake, inalcançável por qualquer lei enquanto navegava em volta ao mundo, autônomo e incontrolável em seu pequeno barco do qual era senhor absoluto, é uma potente representação da liberdade.

Drake tornou-se também um patrono conveniente para os imperialistas que se dedicavam a apossar-se do que não lhes pertencia. Em sua lenda, a Espanha e seus domínios são, acima de tudo, domínios da opressão onde uma ortodoxia religiosa rígida e um monarca autocrata punem com hediondas torturas e morte quem quer que ouse reivindicar liberdade. A Inglaterra — contrastada com esse inimigo lúgubre e opressor — torna-se, em sua própria literatura patriótica, a síntese mesma de tudo que há de criativo e permissível na liberdade individual.

Com sua pequena ilha por território e seus pequenos navios, ela é um estado fora da lei, como os campos verdes de Robin Hood, um lugar onde os espíritos livres buscam abrigo, e Drake é a personificação de tudo isso. Desafiador, ele se recusa a obedecer a lei que julga ser injusta. Destemido, ele enfrenta seu poderoso opressor. Ao atacar os portos da Espanha no continente americano, segundo o poema de Alfred Noyes: “Por sobre o mar arfante chegavam sons; De correntes despedaçadas…”

Dizer que o que Drake de fato fazia no Caribe era liberar, não escravos ou nativos americanos oprimidos, mas a propriedade de outros povos para dela se apossar, em nada afeta seu poder de atração. Em termos reais, a criminalidade e a liberdade são raramente compatíveis: a ilegalidade abre caminho para a opressão. Porém no mundo imaginário das lendas populares e dos mitos nacionais, o criminoso é um espirito livre.

Como o lendário bandido e assassino Robin Hood, como os corsários e assaltantes de diligência da ficção e da poesia românticas, como os gangsteres ou pistoleiros do cinema do século XX, Drake foi e continua a ser objeto de afeto e de admiração, não apesar do fato mas devido ao fato de que as ações pelas quais ele é conhecido terem sido socialmente desagregadoras, violentas e ilegais, desculpáveis apenas — desculpa essa bastante esfarrapada — por serem suas vítimas estrangeiras e, ainda por cima, católicas.

Heróis, de Lucy Hughes-Hallett