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20 de novembro de 2018

Ainda na escola, Descartes começara a lidar com a crescente aparência de precariedade dos fundamentos do conhecimento como se fosse uma crise pessoal sua. Ao escrever sobre isso no Discurso sobre o Método, seu questionamento dos valores surge como se se tratasse de uma crise psicológica ou intelectual, comum na transição dos adolescentes para a idade adulta.

“Assim que concluí os estudos do curso, que normalmente admite as pessoas na categoria dos instruídos […] vi-me tomado por tantas dúvidas e erros que mais parecia nada ter ganhado ao tentar educar-me, exceto descobrir, mais e mais, a dimensão da minha ignorância […] Mesmo assim, eu estivera em uma das mais célebres escolas de toda a Europa, onde achei que encontraria homens sábios, no caso de existirem tais homens sobre a Terra”. Ele se lançava em busca de portos mais seguros. Não iria se deixar burlar pelas “promessas de um alquimista, predições de um astrólogo, imposturas de um mágico”. Encarando as ciências conforme compreendidas pelo sistema aristotélico, ele julgava que “que nada sólido poderia ser erguido sobre fundações tão inseguras”.

E assim, como diversos universitários recém-formados, Descartes determinou-se a deixar os livros para trás e ir explorar o mundo: “Resolvi não mais buscar qualquer outro conhecimento que não fosse aquele que pudesse encontrar por mim mesmo, ou, talvez, no grande livro da natureza.” Ele viajou por nove anos: “Não fiz mais nada a não ser errar de um lugar para outro, disposto a ser um espectador, mais do que um ator nas encenações apresentadas nos teatros do mundo.”

A Europa estava então imersa em um profundo emaranhado de conflitos, conhecidos como a Guerra dos Trinta Anos e a Guerra dos Oitenta anos, e o caminho natural para um jovem aprender sobre a vastidão do mundo era através da guerra. Ele passou algum tempo servindo em dois exércitos: primeiro no de Maurício de Nassau, governador da República da Holanda; e depois no de Maximiliano I, príncipe da Bavária. Todavia, conseguiu evitar o combate direto, dedicando-se à resolução de problemas de engenharia militar.

Enquanto estava na Alemanha, a mente dele fervilhava de ideias e todo seu ser ansiando por uma compreensão total delas, ele passou uma noite de novembro em um “forno” — uma pequena sala, super-aquecida por uma fornalha de cerâmica —, onde teve uma série de sonhos extraordinários e alucinados. Ao despertar, sentiu que os sonhos constituíam uma espécie de visão: eram como se fossem uma destilação de todas as linhas de pensamento que ele vinha perseguindo.

A visão era a do mundo natural como um único sistema, de que a matemática seria a chave. Perseguir essa visão — uma nova maneira de ver o universo e de o homem se relacionar com ele — seria o trabalho de sua vida. A noite de sonhos inflamados de Descartes entrou para a história como uma anedota sobre o eixo em torno do qual o mundo ocidental passou a girar.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto