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22 de novembro de 2018

O Discurso sobre o método resumia o trabalho que Descartes realizou durante os primeiros anos da Guerra dos Trinta Anos (e dos Oitenta Anos) que assolava a Europa Central, foi seu primeiro livro publicado. Para ser exato, eram quatro pequenos livros reunidos em um único volume.

Os três últimos eram ensaios dedicados à luz e à ótica, à geometria e aos fenômenos geológicos e climáticos. Eles incluíam os primeiros, ou pelo menos alguns dos primeiros estudos dignos de crédito sobre a lei da refração, a visão próxima e distante, a natureza do vento, a formação das nuvens e dos arco-íris, assim como a elaboração da geometria analítica.

Contudo, foi o ensaio introdutório, o próprio Discurso sobre o método, meras 78 páginas, que deram a este pequeno homem francês — vaidoso, vingativo, peripatético e ambicioso — um status, entre seus contemporâneos e entre aqueles que se seguiram, jamais igualado desde Aristóteles.

Ele não foi o maior matemático do século XVII (Isaac Newton, pertencente a uma geração posterior à sua, certamente levaria esse título), ou o cientista mais influente (neste quesito, Newton e Galileu ficariam empatados), e alguém poderia argumentar que tanto Espinoza quanto Leibniz eram filósofos mais refinados.

Mas Descartes poderia ser considerado, nas palavras de um filosofo atual, “não apenas o pai da filosofia moderna, mas, em muitos aspectos, da própria cultura moderna — a moderna cultura do Ocidente e, posteriormente, pela exportação de suas ideias, de boa parte da cultura moderna mundial”, e o Discurso sobre o método foi o que primeiro motivou isso. Esse pequeno ensaio foi chamado de “a linha divisória da história do pensamento. Tudo o que veio antes, tornou-se velho; tudo o que veio depois, é o novo”.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto