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27 de novembro de 2018

“Este não foi um ano inteiramente feliz”, admitiu Luís XIV, em particular, em seu diário, no último dia de 1673, na corte em Saint-Germain. “A guerra holandesa está se tornando uma guerra geral”. Algumas semanas depois, “nosso primo Carlos II, rei da Inglaterra”, assinou uma paz em separado com a Holanda, assim retirando da França sua crucial ajuda naval.

“Não é uma boa notícia”, observou Luís sucintamente. Nos bastidores, o astuto e jovem príncipe de Orange tinha trabalhado para desunir a Inglaterra protestante da França católica, e embora o secretamente católico Carlos II desejasse continuar a apoiar seu primo francês à custa de seu sobrinho holandês, seu Parlamento, fortemente protestante, se recusou a votar-lhe os recursos para isso. Carlos estava impotente dentro dos confins de sua monarquia constitucional, como Luís observou com desdém. “Na França a monarquia é absoluta”, escreveu. “Nosso Parlamento não é como o de Londres (Deus nos livre!), nem como o da Holanda. Se fosse, a França estaria escorregando para o republicanismo”.

A retirada da França dos Países Baixos espanhóis no outono, com apenas Maastricht para mostrar pelos 16 meses de luta, era uma clara derrota, embora Luís preferisse não vê-la dessa forma. Na metade do inverno, numa tácita admissão de força e resistência dos próprios holandeses, suas tropas marchavam para o leste, com o objetivo de conquistar a região de Franche-Comté, que ainda era dominada, embora de forma precária, pelos enfraquecidos Habsburgo espanhóis.

Em maio de 1674, o rei acampou do lado de fora da cidade de Besaçon, no centro da região de Franche-Comté. O plano era simples: a infeliz cidade devia ser sitiada, com o máximo de barulho e fumaça, após o que deveria fazer uma abjeta rendição, abrindo seus portões ao triunfante rei da França. O capitão Vauban estava à mão para administrar o cerco. A rainha Maria Teresa também estava à mão, além de Athénaïs e de grande número de cortesãos de Saint-Germain, todos prontos para assistir ao espetáculo e perder o fôlego em admiração diante das explosões dos muros da cidade caindo.

Luís era um experiente mestre de cerimônias. Em seus frequentes balés na corte, ele havia aparecido muitas vezes como Alexandre o Grande, e como vários outros heróis militares. Agora deveria aparecer, em sua “forma mais teatral de guerra”, em seu próprio papel de Louis le Grand. Como sempre, seu magnífico “metteur en scène” fez à ocasião: “Sob a direção de Vauban, a guerra de cerco veio a se parecer cada vez mais com um balé coreografado até o último detalhe, ou uma tragédia de palco com um desfecho previamente determinado”. Como em Saint-Germain e Versalhes, também em Besançon. Durante o cerco, o rei estava constantemente visível, “encorajando as tropas”. A cidade resistiu por 13 dias, depois se rendeu a Luís como sugerido, para aplauso de metade de sua corte. Ele então voltou para casa, deixando as outras cidades do Franche-Comté para serem tomadas de maneira menos teatral por seus generais.

Em julho de 1674, teve início uma semana de festividades em Versalhes, para finalmente celebrar a tomada de Franche-Comté. O último banquete magnífico aconteceu em um dos pátios interiores do castelo, “num jardim coberto de flores, onde uma mesa octogonal tinha sido construída ao redor de uma imensa e triunfante coluna”. “Mostraremos aos estrangeiros como a França sofre com os destinos da guerra”, escreveu Luís.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley