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6 de dezembro de 2018

Em 1685, Carlos II morreu sem deixar herdeiro legítimo e o trono passou para seu irmão mais novo, o melhor almirante inglês, Jaime, duque de York. Essa troca de monarcas alterou fortemente a posição inglesa. Jaime era sincero, direto, orgulhoso, objetivo e desprovido de sutilezas. Nascido protestante, converteu-se ao catolicismo aos 35 anos, demonstrando dali por diante o fanatismo especial de um convertido, traço que era entusiasticamente encorajado por sua segunda esposa, a católica Maria de Modena.

Uma vez no trono, agiu rapidamente para alterar o equilíbrio das forças políticas na Inglaterra. Seu primeiro objetivo era simplesmente remover as restrições colocadas aos católicos pela maioria protestante e anti-católica. Cada vez mais, todavia, os católicos eram promovidos a posições-chave. Governantes católicos foram instalados nos portos do Canal e um almirante católico recebeu o comando da frota do Canal. Embora a ansiedade e a oposição dos protestantes crescessem rapidamente, um fato importante sufocou qualquer ação aberta: Jaime não tinha filhos, e suas duas filhas, Maria e Ana, eram ambas protestantes. Assim, os anglicanos ingleses estavam preparados para esperar pela morte de Jaime e a vinda de sua sucessora, Maria. E o marido de Maria, que a acompanharia no trono, era Guilherme de Orange.

Guilherme não desgostava de seu tio, mas temia profundamente a presença de um monarca católico no trono inglês e as implicações de um alinhamento da França e da Inglaterra católicas contra a Holanda protestante. Mesmo assim, também estava preparado para esperar a morte de Jaime. Entretanto, em junho de 1688, a rainha e esposa de Jaime teve um filho. O rei católico agora tinha um herdeiro católico. Essa questão foi o estopim para que os protestantes ingleses passassem imediatamente a apoiar Guilherme.

O convite para Guilherme substituir seu tio no trono inglês foi feito por sete dos mais respeitados líderes protestantes da Inglaterra, incluindo tanto Whigs quanto Tories. Obtendo o apoio e a permissão na Holanda, Guilherme enviou à Inglaterra um exército holandês composto por doze mil homens em duzentos navios comerciais escoltados por 49 navios de guerra — quase toda a frota holandesa. Passando pelas frotas inglesa e francesa, que o observavam, chegou ao solo inglês atrás de uma bandeira ostentando o antigo lema da Casa de Orange, “Eu manterei”, à qual acrescentou as palavras: “as liberdades da Inglaterra e da religião protestante”.

Jaime enviou seu amigo, o comandante militar mais habilidoso, John Churchill, na época conde de Marlborough, para confrontar o exército de Guilherme, mas Marlborough, sendo protestante, prontamente desertou para o lado dos invasores, assim como o fizeram a princesa Ana, e seu marido, o príncipe Jorge da Dinamarca. O rei ficou abalado. Gritando “Que Deus me ajude! Até mesmo meus filhos me desertaram!”, ele fugiu de Londres sem sequer se barbear, jogando o Grande Selo no rio enquanto cruzava o Tâmisa a caminho da França.

Embora os eventos de 1688 tenham marcado uma forte transformação na história política e constitucional da Inglaterra e sejam chamados de Revolução Gloriosa, Guilherme não lhes deu muita importância. Para manter o apoio à luta na Europa, consentia com tudo que o Parlamento pedia. Deixou a política doméstica nas mãos de outros enquanto se esforçava para controlar com as próprias mãos a política externa inglesa, alinhando-a com a política holandesa e até mesmo fundindo os serviços diplomáticos holandês e inglês.

Essencialmente, um acordo havia sido fechado: o Parlamento concordava com a guerra de Guilherme para proteger a religião protestante e afirmar sua supremacia; Guilherme aceitava a supremacia do Parlamento para manter o apoio inglês na luta contra o homem mais poderoso da Europa: o Rei Sol.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie