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21 de janeiro de 2019

O que exatamente constitui um objeto material? A tentativa de responder a essa pergunta lançava o físico e seu público nas profundezas da filosofia. “Em conexão com a ‘crença’ na existência do ‘ser físico’”, anotou o advogado, “buscamos compreender o que é que nos convence dessa crença. O calor, por exemplo, não é a essência, pois existem coisas quentes”. E: “Não é dureza ou o estado líquido que forma a essência de uma coisa, e pelo mesmo motivo.”

Aqui, Descartes e seus seguidores opunham-se à noção escolástica da matéria. Segundo o pensamento tradicional sobre o assunto, o céu tinha o azul em si, a água tinha a umidade, o alho, o seu odor. Essas qualidades perceptíveis eram inerentes à substância subjacente de uma coisa. Rohault, em especial, achava que isso era uma noção ilógica, que impedia o pregresso material. Os aristotélicos, ele escreveu, raciocinavam que “seria impossível que corpos luminosos ou coloridos nos causassem essas sensações se não houve neles algo muito semelhante ao que nos causavam, pois, diziam, nada pode dar o que não contém”. Rohault desmonta essa lógica com um simples exemplo: o fato de que uma agulha espetada na pele provoca dor claramente não significa que a dor esteja, de alguma forma, na agulha. A dor está na mente. E assim, de certa maneira, dá-se o mesmo com o azul do céu, a umidade da água, o cheiro do alho.

Essa é a raiz do que Descartes legou não só para os seus discípulos mais próximos, mas para a maioria de nós que viemos depois. Há uma divisão no universo — existem duas substâncias distintas. Uma é a matéria. A outra é a mente. A realidade não é “aquilo que está lá fora”, mas uma dança envolvendo quem sente e o que é sentido. Por mais abstrata que fosse, essa noção era essencial para os cartesianos. E, por estranho que pareça, também era perigosa. Essas noções conceituais, de aspecto meramente intelectual, tinham implicações políticas. Por mais mais que os próprios cartesianos desejassem o contrário, o cartesianismo ameaçava alguns centros do poder mundano.

Ao se encontrarem nas “mercredis” de Rohault e em outros lugares, às vezes pitorescamente chamados de “salões cartesianos”, em Paris e no resto da Europa (a Societé des lanternistes, em Toulouse, por exemplo, que tinha esse nome devido às lamparinas que seus membros carregavam para iluminar o caminho para as sessões noturnas), esses homens e mulheres tinham plena consciência de que estavam se arriscando, em maior ou menor grau, conforme as diferentes igrejas e governos, que variavam suas compreensões da nova filosofia.

No caso de cada uma dessas instituições, o medo era de ver seu poder esvaziado. Se essa nova seita, o cartesianismo, professava ser capaz de demonstrar que, por exemplo, o corpo era um tipo de máquina e a morte uma barreira absoluta, como então ficava a doutrina da vida após a morte ou da ressureição corpórea de Cristo? Se os milagres podiam ser descartados, com toda a propriedade, como bobagens, uma fé baseada neles perdia seus fundamentos.

Para um governo autocrático, a ameaça era igualmente séria. Enquanto Rohault fazia demonstrações físicas em Paris, em Amsterdam, Baruch Espinoza — também dando continuidade às ideias de Descartes — usava a razão como base para afirmar que a democracia, e não a monarquia absolutista, era o único sistema justo de governo. Tais ideias eram sussurradas nos círculos cartesianos, levando os governantes da Europa a considerá-los suspeitos, quando não, ameaçadores.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto