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22 de janeiro de 2019

Uma ideia perturbou Descartes pela primeira vez em 1630, de uma maneira aparentemente inócua, quando ele refletia sobre ótica e cores. Ao partir um pão, seu interior mostra-se branco. Claro que a brancura está no próprio pão, não é mesmo? A partir desta percepção mundana, sua mente percorreu uma cadeia lógica que ameaçava as principais instituições da Europa.

No século XVII, assim como hoje, o principal rito do catolicismo era a missa, e no centro da missa — a essência da fé — estava a Sagrada Comunhão, em que os fiéis recebia pão e/ou vinho: o “corpo e o sangue” de Jesus Cristo. Uma das principais diferenças entre o catolicismo e o protestantismo — um dos fatores por trás do banho de sangue do século que havia pouco terminara — envolvia o significado das aspas na frase anterior. Os protestantes (alguns deles pelo menos) passaram a afirmar que o pão e o vinho representavam o corpo e o sangue de Cristo, enquanto que, para os católicos, o mero simbolismo não alcançava a natureza genuína do mistério ali envolvido.

Na teologia católica (e na convicção católica do século XVII e da atualidade), quando um sacerdote repete, durante a missa, as palavras ditas por Jesus na Última Ceia — “Esse é o meu corpo […] esse é o cálice do meu sangue” — ele inicia uma verdadeira conversão da substância. Um século antes, o Concílio de Trento, que se estabeleceu como uma reação à Reforma Protestante, decretara que, em relação ao pão e ao vinho consagrados, “fica contido […] verdadeira, real e substancialmente, nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Homem sob as espécies daqueles materiais sensíveis”.

Para a Igreja, Cristo era, e tinha de estar, “verdadeiramente, real e substancialmente” presente no pão e no vinho. Católicos inteligentes e razoáveis não precisam necessariamente ter um problema com a lógica dessa questão, graças à crença no mistério como uma força verdadeira sobre o mundo. Com efeito, a transformação não pode ser explicada por meios extraordinários, o que faz parte da essência da fé, assim como a ressurreição do corpo e a ascensão ao céu eram elementos da misteriosa verdade da passagem de Jesus. E quanto ao fato de o pão, após ser consagrado pelo padre, ainda manter o aspecto de pão, parecer pão ao toque e continuar a ter gosto de pão, os teólogos católicos aplicaram categorias aristotélicas, conforme a adaptação feita por Tomás de Aquino.

Um objeto material, na ciência aristotélica, é constituído por acidentes — cor, odor, sabor — e substância, a própria coisa real e subjacente. Quando um padre abençoa o pão e o vinho durante a missa e repete a fórmula bíblica, a transformação acontece no nível da substância. As substâncias subjacentes do pão e do vinho são trocadas pelas substâncias da carne e do sangue de Jesus Cristo. Daí o termo “transubstanciação”, que passou a ser usado pelos teólogos em torno de 1100 d.C. Mas os “acidentes” do pão e do vinho — que lhes dão sua aparência, mas que são componentes reais do pão e do vinho — mantêm-se inalterados. Esse fragmento aparentemente problemático da realidade era, na verdade, considerado um segundo milagre e, na Idade Média, uma “prova” dos milagres gêmeos da transubstanciação que ocasionalmente se manifestava no mundo.

O próprio Descartes preferia não aprofundar-se mais no seu estudo, no entanto, em 1643, recebeu uma carta de um dos professores de sua velha escola de La Fléche. Padre Denis Mesland tornara-se um devoto das ideias de Descartes e agora, assim com outros seguidores, chegavam a mesma questão.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto