#700

28 de janeiro de 2019

O filosofo americano Richard Watson, escrevendo sobre a explicação aristotélica, aproximou a noção dos “acidentes” que miraculosamente mantêm a falsa aparência a um “escudo” que cobre a verdadeira substância, e acrescentou: “São conhecidas numerosas histórias de o escudo cair de tal forma que o padre deparava-se comum autêntico pedaço de carne ou, mais espetacularmente, um pequeno e perfeito bebê em suas mãos.”

No que se referia às autoridades católicas, a física da transubstanciação tinha de ser explicada dessa maneira. É difícil superestimar a importância multifacetada da eucaristia (para chamar o sacramento da comunhão pelo seu nome correto) na Europa católica do século XVII. Como a hóstia torna-se verdadeiramente o corpo de Cristo, ela incorpora a dor física de Cristo, seu desejo de sofre e morrer pela humanidade e, assim sendo, seu amor pela humanidade. Consumir a hóstia é um ato de reafirmação do compromisso com a fé, de participação no sofrimento dele e de aceitação de seu amor divino.

Comer o pão é também unir o próprio corpo físico ao corpo de Cristo — tornar-se parte do corpo de Cristo, significando tanto o corpo físico dele quanto o corpo dos fiéis. Desta forma, o ritual da eucaristia era, e continua a ser, a verdadeira essência do cristianismo católico, atando o esoterismo da fé ao fato essencial da humanidade: nosso ser físico, de carne e osso. Novamente a questão é que o ato não é simbólico, mas real. A hóstia católica traz o que os cristãos acreditam ser a raiz histórica da fé — que, em Jesus, Deus fez-se carne, sofreu fisicamente e morreu — no aqui e agora, de novo e de novo, cada vez que a missa é celebrada.

Com toda a significação espiritual que continha, esse conceito também acarretava implicações tremendas para o poder no mundo real. Toda a infraestrutura da Igreja — paróquias e catedrais, padres e freiras, propriedades, arte, renda, a capacidade de moldar e manipular as cabeças do Estado — repousava sobre isso. Apenas um padre ordenado podia rezar a missa, e, ao celebrar a comunhão e repetir as palavras “Eis o meu corpo”, ele pelo qual os católicos participavam do mistério do martírio e da morte corporal dele, bem como de sua ressurreição. Como a hóstia era a verdadeira substância do corpo de Cristo, a Igreja tinha o que acreditava ser a franquia da salvação.

A Reforma Protestante representou um ataque à transubstanciação e ao poder secular que ela outorgava à Igreja Católica. O padre Mesland estava entre os primeiros a reconhecer que a ciência cartesiana significava mais um ataque do gênero. No cômputo do universo, segundo Descartes, não havia uma maçã “real”, ou árvore “real”, ou borboleta “real”, ocultos sob o escudo das aparências acidentais dessas entidades que lhe devam a aparência plena de ser um pedaço de granito, então era um pedaço de granito. E se parecia, cheirava e tinha o gosto de pão, então era… pão. Era nessa direção que Mesland via seguirem as ideias de Descartes, e trava-se de uma direção perigosa.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto