#703

1 de fevereiro de 2019

Os jesuítas Malines e Casati haviam afinal chegado a Estocolmo depois de uma viagem árdua e dominada por tempestade, incluindo uma etapa por gôndola, e já vinham instruindo sua majestade nas doutrinas da fé católica. De Viena, um dos próprios espiões da rainha sueca enviara um aviso de que se acreditava que “não menos de quatro jesuítas” estivessem à solta em algum lugar em Estocolmo.

Os padres italianos passaram quase três meses na cidade disfarçados de turistas ricos. “Don Lucio e don Bonifacio” faziam visitas regulares à rainha, e seus relatórios indicam as questões que a interessavam. Existia realmente alguma diferença entre o bem e o mal?, ela perguntou. A alma era realmente imortal? Era absolutamente necessário rezar aos santos, manter estátuas deles e venerar relíquias? Não poderia ela praticar o catolicismo em segredo e permanecer externamente luterana? Seu tio-avô, o rei João, tentou fazer isso. E como, no fim, poderia a fé ser reconciliada com a razão?

Os dois jesuítas não a enganaram. Sim, existia uma diferença. Sim, a alma era imortal. A Santa Madre Igreja tinha boas razões para todas as suas práticas. Não, sua majestade não podia ser católica e luterana ao mesmo tempo. Sua santidade não sorrira das tentativas do venerado antecessor de sua majestade. Sua majestade devia reconhecer que os artigos de fé estavam acima da razão, e no entanto não contrários à razão. Suas dúvidas não passavam das tentações do diabo.

Cristina confessou que, em sua busca da verdade, estivera examinando cada um dos dogmas da religião à luz da razão natural — uma prática católica que talvez tenha aprendido de Descartes. Concluiu, porém, que os mistérios de fé não eram suscetíveis à investigação desse modo. Garantiu-lhes que não perdera a crença na existência de Deus, embora tivesse de dizer que as várias religiões lhe parecessem apenas uma invenção política destinada a manter as pessoas comuns em seu lugar. Investigara todas elas, o cristianismo, o judaísmo, e o islamismo, e decidira a principio que uma aquiescência simples nas formas de sua religião local era o curso mais sábio e mais fácil de ação. Mas era difícil, ela disse, viver sem alguma fé pessoal verdadeira, pois que outra fundação podia existir para a vida? Uma verdadeira religião devia existir em algum lugar, sentiu, e este com toda certeza devia ser Roma.

“O arbítrio era em si a coisa mais nobre que podemos ter. De certo modo, nos torna iguais a Deus.” Foi o que escrevera Descares certa vez para a jovem rainha em sua busca. Cinco anos depois, ela encontrou a resposta. “O uso de nosso próprio livre-arbitrio”, escreveu, “é o sacrifício mais nobre que podemos oferecer a Deus. A razão não nos persuadirá da verdade do cristianismo. Devemos submeter-nos cegamente à Igreja Romana, que é o único oráculo de Deus. Crer em mais, é superstição. Cre em menos, é infidelidade.”

Trata-se de uma conclusão conveniente, com o elo apolítico que Cristina sempre gostara nas máximas antigas. Talvez acreditasse nisso em alguns momentos, mas com certeza não constantemente. Em certo sentido, estava desistindo da procura, “submetendo-se cegamente” a outro ponto de vista, entesourando-o na aparente inevitabilidade. Mas, ao mesmo tempo, foi-lhe conveniente escolher a Igreja Romana. Era, afinal, em Roma.

Cristina Alexandra, de Veronica Buckley