#706

4 de fevereiro de 2019

Diversos poderosos intrigavam-se com a ideia de essa estranha e mal-compreendida nova ferramenta — o cartesianismo — tornar-se realmente parte do arsenal da Igreja ou do Estado. O clima alternava-se entre o de curiosidade e o de medo.

Portanto, a situação dos cartesianos no final do século XVII espelhava, de certa forma, aquela dos primeiros cristãos nas catacumbas da antiga Roma. Eles eram alternadamente tolerados, postos em suspeita, perseguidos e, é claro, finalmente triunfantes na disseminação de sua filosofia.

Havia ainda outros paralelos. Muitos dos primeiros cartesianos eram padres católicos. De certa forma, a nova filosofia se tornaria um substituto do cristianismo como base da cultura ocidental, e, de fato, os cartesianos referiam-se a si mesmos como “discípulos de Descartes”. Sua física colidia com as visões católicas sobre o corpo de Cristo, e eles estavam prestes a usar o corpo material de Descartes, ou o que restara dele, para promover sua filosofia. E havia ainda o fato de que, em vida, Descartes parece ter acreditado que seria capaz de, por alguma via, suplantar o domínio da morte — a ironia sendo, justamente, a que sua ideia de “vida eterna” baseava-se em crenças científicas, em lugar de crenças religiosas.

Assim como os primeiros cristãos, os cartesianos acreditavam fervorosamente em sua causa. Alguns a encaravam de maneira quase mística. Eram guardiões de um legado e portadores de uma chama que, eles acreditavam, iria iluminar o futuro do mundo. Sabiam que aquilo com o que se envolviam era perigoso e exigia conhecimentos não só dos meandros da filosofia e da ciência, mas também do funcionamento do poder.

Os Ossos de Descartes, de Russell Shorto