#709

8 de fevereiro de 2019

“A rainha da Espanha está chorando e se lamentando”, escreveu madame de Sévigné, um ano e uma semana depois, em meados de setembro de 1679. Mas, embora a “casa pessoal” de Luís XIV não estivesse mais em ordem do que um ano antes, não era à negligenciada Maria Teresa (esposa espanhola de Luís) que madame de Sévigné se referia.

O reino da Espanha tinha acabado de ganhar uma nova rainha, por cortesia do rei da França, e no último dia de agosto, no castelo de Fontainebleau, ela tinha enfrentado uma longa cerimônia de congratulações oficiais por sua ascensão às rarefeitas fileiras de cabeças coroadas da Europa. Em seu diário particular, Luís XIV registrou friamente os fatos: “A corte hoje homenageou minha sobrinha Maria Luísa de Orléans, que deverá se casar com meu primo, o rei Carlos II da Espanha. Ela não consentiu de bom grado e compara-se à sacrificada Ifigênia.”

Maria Luísa, uma menina animada, atraente e educada, era a filha mais velha do primeiro casamento de “Monsieur” [irmão de Luís] com a reconhecidamente bela princesa inglesa Henriqueta Ana Stuart. Como sua mãe, que tinha sido obrigada a se casar com uma prima dele, Maria Luísa estava de fato sendo sacrificada por causa dos favoráveis ventos diplomáticos — nesse caso pelos enviados franceses que estavam viajando para a corte espanhola, para o rígido palácio-mosteiro El Escorial. Para eles, apesar do esplendor residual, a capital imperial era definitivamente um lugar de sofrimento, isolado, retrógrado, “horrivelmente enlameado no inverno e insuportavelmente poeirento no verão”. A própria corte não era mais agradável: a comida era ruim e o governo, pior; a economia estava estagnada e as províncias, rebeldes; sacerdotes obscurantistas bloqueavam qualquer ideia nova, enquanto uma multidão de nobres em roupas negras, como corvos atacando uma carcaça de batalha, espoliava o que havia sobrado do grande império do passado.

Para Maria Luísa, de 17 anos, isso não significava nada comparado ao horror de seu iminente casamento com o desprezível rei dos espanhóis, um deplorável espécime da humanidade que até agora tinha mancado e se arrastado ao longo de 19 anos de “vida miserável”. Carlos II, o último dos Habsburgo espanhóis, era o assustador resultado de gerações de procriação consanguínea, um caso tão perdido, mesmo dentro de sua própria família, que nunca tinha sido ensinado nem mesmo a se manter limpo.

“O rei da Espanha é mais baixo que a média, um tanto magro, e manca um pouco.” Assim o embaixador francês iniciou seu relatório, diplomaticamente, antes de ganhar ritmo. “Não recebeu nenhuma educação, não tem nenhum conhecimento da literatura ou ciência, e de fato mal sabe ler ou escrever. Seu rosto é extraordinariamente longo, estreito e descarnado, e seus traços são todos desproporcionais, de modo que sua aparência é absolutamente bizarra […] Por natureza e por criação, não tem entendimento de nada, não tem sentimento por nada e nenhuma inclinação para fazer nada.”

Assim era o pobre e baboso Carlos, “o centro de tantas esperanças”, despenteado e sujo, sua fala impedida por uma língua anormalmente grande, seus ossos enfraquecidos por doenças, “um fracote raquítico e parvo, o último rebento de uma linhagem degenerada”. Seus súditos espanhóis o tinham apelidado de El Hechizado (O Enfeitiçado), atribuindo suas muitas enfermidades à bruxaria. O próprio Carlos acreditava nisso, submetendo-se confusamente a exorcismos numa tentativa de se tornar saudável.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley