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9 de fevereiro de 2019

“Uma filha deve obedecer a seu pai, mesmo que ele queira lhe dar um macaco como marido”, diz Dorine à sua desesperada e jovem patroa em Tartufo, de Molière. De fato, o próprio pai de Maria Luísa talvez tivesse condescendido, ou assim pensava madame de Sévigné: “As pessoas estão dizendo: Oh monsieur é muito bondoso; ele jamais a deixará ir; ela está angustiada demais.” Mas dessa vez a autoridade paterna não se provou suprema. O pai era irmão do rei; o rei poderia dispor de todos os seus súditos, em especial de uma princesa estrategicamente útil.

Quinze dias depois das celebrações em Fontainebleau, Maria Luísa “ainda implorava misericórdia, lançando-se aos pés de todos”. Dois dias depois: “A rainha da Espanha esteve um verdadeira fonte hoje […] não sei como o rei da Espanha pode manter seu orgulho diante de tal desespero.” O rei da França, pelo menos, tinha permanecido impassível, e antes que o mês terminasse, Maria Luísa foi despachada. “Madame”, disse-lhe seu tio, “espero que este adeus seja para sempre […] Dizem que ela chorou copiosamente […]”. Liselotte, sua madrasta, teve a bondade de acompanhá-la durante parte da viagem.

“A rainha da Espanha era um tanto magra quando vivia na França, mas começou a encher desde que chegou à Espanha”, escreveu o embaixador francês alguns meses depois. Era absolutamente verdade: Maria Luísa, antes vivaz, tinha começado uma triste queda na mais profunda depressão e obesidade mórbida. E no final, o desejo manifesto por Luís XIV para sua sobrinha se concretizou: Maria Luísa jamais poria os olhos novamente na França. Ela morreria aos 27 anos, supostamente envenenada por sua sogra por não ter tido filhos, porém, mais provavelmente pelos horriveis efeitos da angústia e tristeza sobre seu corpo encantador. Mais de uma década depois, o rei da Espanha exigiria que seu corpo fosse exumado para que pudesse olhar para ela, e o faria, perdido em lágrimas muito possivelmente, próximo da loucura.

O império da Espanha, tão grande no passado, estava atolado em problemas, mas também havia algo de podre na aparentemente saudável França. Se Luís XIV ainda estava preocupado com a desordem em sua “casa pessoal”, em sua casa do estado os problemas estavam apenas começado.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley