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16 de fevereiro de 2019

A Europa da segunda metade do século XVII era dominada pelo poder e pela glória de um único homem: Sua Mais Cristã Majestade, Luís XIV da França, também conhecido como o Rei Sol. Representado na arte como Apolo, a divindade que personifica o Sol na mitologia greco-romana, e seus raios realmente se estendiam de modo a afetar todos os cantos da política, diplomacia e civilização europeias.

Poucos reis de qualquer época ultrapassaram Sua Majestade. Seu reinado de 72 anos foi o mais longo da história da França; seus contemporâneos franceses o consideravam um semideus. “Seu mais leve gesto, seu modo de andar, seu porte, seu semblante, tudo era medido, apropriado, nobre, majestoso”, escreveu Saint-Simon, um cronista da corte. A presença de Luís era esmagadora. “Jamais estremeci dessa forma diante dos inimigos de Sua Majestade”, confessou um dos marechais do rei ao se ver diante da presença real.

Fora da França, poucos europeus enxergavam os raios do Rei Sol como algo totalmente benéfico. Para a Europa protestante, Luís XIV era um tirano católico agressivo e brutal. O instrumento das guerras de Luís era o exército francês. Criado por Louvois, ministro da Guerra, somava 150 mil membros nos tempos de paz e 400 mil quando em guerra. A cavalaria vestia-se de azul; a infantaria, de vermelho claro, e os guardas reais (a famosa Maison du Roi) de escarlate. Comandado pelos talentosos marechais da França: Condé, Turenne, Vendôme, Tallard, Villars e Vauban, o exército nacional era a inveja — e o terror — da Europa.

O próprio Luís não era um guerreiro. Embora tivesse ido para a guerra quando jovem, exibindo uma imagem impetuosa montado a cavalo e usando uma bela couraçada, capa de veludo e chapéu de três pontas com plumas, não participava efetivamente de batalhas, apesar de ter se tornado um especialista em detalhes de estratégia e administração militar. Quando Lauvois morreu, Luís assumiu seu papel e tornou-se o ministro da guerra. Era ele quem discutia as grandes estratégias das campanhas com seus marechais e cuidava do abastecimento de suprimentos, do recrutamento, treinamento, alocação e extração de informações.

Assim, o século se desenrolou, e o prestígio do Rei Sol e o poder e glória da França cresciam ano após ano. O esplendor de Versalhes atraía a admiração e a inveja do mundo. O exército francês era, indiscutivelmente, o melhor da Europa. O francês tornou-se a língua universal da diplomacia, da sociedade e da literatura. Aparentemente tudo, qualquer coisa, era possível, se no papel que carregava a ordem aparecesse a altiva e tremida assinatura de Luís.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie