#718

19 de fevereiro de 2019

Aos dezoito anos, Carlos XII da Suécia estava nas profundezas de uma floresta, caçando um urso, quando soube que as tropas de seu primo, Augusto II da Polônia haviam invadido a Livônia sueca sem uma declaração de guerra. Ouviu a notícia calmamente, sorriu, virou-se para o embaixador francês e falou em voz baixa: “Faremos o rei Augusto voltar pelo mesmo caminho por onde veio”.

A caça ao urso continuou; entretanto, assim que voltou a Estocolmo, Carlos convocou o conselho: “Resolvi nunca dar início a uma guerra injusta”, declarou, “mas também nunca terminar uma guerra justa sem vencer meu inimigo”. Era uma promessa que ele buscaria cumprir pelo resto de sua vida com uma convicção que ultrapassava a política habitual e quase ultrapassava a razão. Quando, algumas semanas mais tarde, recebeu a menos surpreendente notícia de que Frederico IV da Dinamarca havia entrado na guerra marchando sobre o território do duque de Holstein-Gottorp, Carlos declarou: “É curioso que ambos os meus primos, Frederico e Augusto, queiram iniciar uma guerra contra mim. Que assim seja, então. Porém, o rei Augusto não cumpriu com sua palavra. Nossa causa é, portanto, justa, e Deus vai nos ajudar. Pretendo acabar com um dos meus inimigos e depois conversar com o outro”. Nesse momento, Carlos não sabia da existência de um terceiro adversário, Pedro, da Rússia, que também se preparava para entrar em campo contra ele.

Nenhum dos inimigos desprezava o poder sueco; a reputação militar do país era, de fato, muito alta. No entanto, o ponto fraco da nação, sob o ponto de vista desses inimigos, estava no topo. Toda a responsabilidade e a autoridade, militar e civil, agora repousavam nos ombros de um monarca de dezoito anos de idade. Carlos podia ter conselheiros e ministros, tutores, generais e almirantes, contudo, ele era o rei absoluto, e seu comportamento, conforme havia sido bem reportado, variava entre a rudeza obstinada e a temeridade obsessiva. Parecia uma combinação improvável para guiar uma nação na resistência ao ataque de três inimigos poderosos.

Infelizmente para eles, os inimigos de Carlos não conheciam e nem tinham como conhecer o verdadeiro caráter do monarca. O garoto que sonhava com Júlio César e Alexandre, o Grande, não tinha medo de desafios — pelo contrário, ele os adorava. Estava preparado não apenas para a guerra, mas para uma guerra feroz, desesperada, de grande alcance; não para uma breve batalha seguida por um acordo de paz mesquinho, mas para soluções completas e radicais. O conselho de seu pai, antes da morte, havia sido para manter a Suécia em paz, “a não ser que você seja arrastado pelos cabelos para a guerra”. Essa “guerra injusta” lançada de surpresa contra a Suécia trouxe toda a moral severa do norte, a moral de Carlos, para a cena.

Ele não estava preparado, como outros monarcas, para recuar, fazer concessões, vencer os inimigos com intrigas, para lutar num dia e se divertir no outro. Carlos havia sido injustamente atacado por Augusto e, não importava quanto tempo levasse, não descansaria até que seu agressor fosse arrancado do trono. Ao atacarem Carlos, os aliados haviam libertado um raio. Orgulhoso, precipitado, voluntarioso, amante dos desafios, orgulhoso da reputação da Suécia, ansioso para testar sua própria coragem no maior de todos os jogos, Carlos voltou-se para a guerra não apenas com determinação, mas com alegria.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie