#720

21 de fevereiro de 2019

No outono de 1697, com a assinatura de uma série de tratados na cidade holandesa de Rijswijk, a guerra do Rei Sol contra a Grande Aliança — nada menos que metade da Europa — tinha finalmente chegado ao fim. Após nove anos de lutas, ninguém tinha ganhado muito. Territórios conquistados com muita dificuldade foram devolvidos; antigos e novos regimes foram relutantemente reconhecidos. Um tempo de paz tinha começado na Europa, mas era uma paz cautelosa, instável, ameaçada pela aversão, desconfiança e por ambições insatisfeitas.

O grande culpado era Luís XIV, com seu ataque à Renânia e seu apoio aos jacobitas católicos no trono da Inglaterra contra o protestante Guilherme de Orange, em 1688, e se por ora ele havia aceitado a paz, já tinha começado a pensar em sua próxima campanha expansionista. Tinham-se passado mais de vinte anos desde que uma bondosa e séria Liselotte tinha deixado sua enteada na estrada para o sul, “chorando e se lamentando” pelo casamento próximo com o horrível e desfigurado rei da Espanha. Dez anos depois, aos 27 anos, a rainha havia morrido obesa e profundamente deprimida, e agora, no fim dos anos 1690, embora ainda não tivesse 40 anos, Carlos II da Espanha também se aproximava da morte.

Um segundo casamento com uma princesa alemã não tinha sido mais bem-sucedido que o primeiro, e a falta de um herdeiro para o império espanhol tinha se tornado uma questão da maior importância em todas as cortes da Europa. A antiga rivalidade entre a França e os Habsburgo austríacos, apenas recentemente acalmada pela Paz de Rijswijk, parecia pronta a se reacender, e Luís vinha tentando evitá-la por meio de um arranjo com o recente aliado dos austríacos, o rei Guilherme III da Inglaterra. “Conseguimos concordar, eu e o rei Guilherme (estou tentando não dizer príncipe de Orange), em dividir os bens do rei da Espanha caso Carlos II (que não tem herdeiro direto) venha a morrer logo”, escreveu Luís próximo de 1698.

“Acho que […] o rei da Espanha vai sobreviver a todos que agora estão dividindo seu reino”, observou Liselotte, 18 meses depois. Mas ela estava equivocada: apesar, ou talvez por causa da grande quantidade de champanhe que lhe vinha sendo administrado para sustentá-lo, Carlos morreu no dia 1 de novembro de 1700, deixando para trás uma aliviada viúva, um vasto império em situação desesperadora e um testamento desastrosamente controverso.

Tanto Bourbons franceses quanto Habsburgos austríacos tinham direito ao trono, já que por gerações todos eram parentes de todos. Mas, a não ser pelos franceses, ninguém na Europa queria ver o imenso império espanhol associado à já excessivamente poderosa França; e a não ser pelos austríacos, ninguém queria vê-lo associado à Áustria, para dominarem o continente como tinham feito durante o século XVI. O sonho de Viena era o pesadelo de Versalhes, e vice-versa.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley