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22 de fevereiro de 2019

“O que o resto da Europa dirá se aceitarmos este generosíssimo legado de sua majestade católica?”, ponderou Luís XIV. Se ele aceitasse o testamento, o trono espanhol passaria ao segundo filho do delfim, o duque de Anjou, com 17 anos, cujo irmão mais velho, o duque de Borgonha, era obrigado a permanecer na França como herdeiro de seu próprio país. Se Luís recuasse, ele passaria ao arquiduque Carlos em Viena, com 15 anos, segundo filho do imperador. Ambos queriam o trono, mas, após nove anos de lutas durante os anos 1690, ninguém queria provocar uma guerra por isso.

A reunião do Alto Conselho, na terça-feira, 9 de novembro, estendeu-se até as sete da noite, durando quatro horas. Ali se decidiu que os termos do testamento deveria ser aceitos. Na sexta-feira, dia 12, Luís se reuniu com o embaixador espanhol para lhe informar a decisão, e na terça-feira, dia 16, ela foi formalmente anunciada. “Cavalheiros”, disse Luís, trazendo à frente o jovem duque de Anjou, “dou-lhes o rei da Espanha”. “Os Pirineus estão comovidos!”, declarou o embaixador, ajoelhando-se aos pés do rapaz e beijando sua mão conforme o costume espanhol. “E então ele fez um discurso bastante grande em espanhol”.

O novo rei Felipe V partiu levando dois presentes estimulantes de seu avô: uma coleção de 33 artigos, para orientá-lo como rei da Espanha, e a certeza de que, independentemente dos termos do testamento, e num desafio a todas as potências europeias, ele não tinha perdido seu direito a suceder o trono também na França. “Seja um bom espanhol”, disse-lhe Luís, “mas lembre-se de que você também é um francês […] Esta é a forma de manter a união das duas nações e manter a paz na Europa”.

No entanto, como Luís devia ter percebido, a união entre França e Espanha era justamente a maneira de não manter a paz na Europa. Juntas, França e Espanha representavam um bloco poderoso demais, e com a Espanha no caos e o novo rei mal chegado à idade adulta, o expansionista rei francês estaria claramente no controle. Na verdade, Luís ainda estava preso a um tempo em que uma única grande potência, mais rica e mais bem armada que todas as outras, podia dominar toda a Europa. Mas desde a Guerra dos Trinta Anos de sua infância, desde suas incursões pelo território holandês e da inconclusiva e dispendiosa Guerra dos Nove Anos, que ele mesmo provocou, estava se tornando cada vez mais claro que nenhuma grande potência jamais teria recursos suficientes para dar as ordens em todo o continente.

Mas a visão que Luís tinha da Europa, do poder e da monarquia era essencialmente retrógrada. “Terei de me acostumar a fingir que considero o príncipe de Orange o verdadeiro rei da Inglaterra”, ele havia observado recentemente, “mas não é fácil.” Como Guilherme não tinha sangue real, era motivo suficiente, aos olhos de Luís, para que sua reivindicação ao trono inglês permanecesse ilegítima. Em janeiro de 1701, Luís se recusou, igualmente, a reconhecer o recém-coroado Frederico I como rei da Prússia: para ele, Frederico não era, de modo algum, um rei, mas apenas o eleitor de Brandemburgo, independentemente dos astutos arranjos diplomáticos e financeiros que ele havia feito para que seu poderoso estado prussiano fosse declarado um reino — um reino destinado a ter um papel perigoso na história da própria França.

As opiniões intratavelmente estáticas e não pragmáticas de Luís o tinham seduzido a pensar que seu neto Bourbon poderia se sentar no trono imperial espanhol em segurança. Por sua apressada aceitação do desastroso testamento de Carlos II da Espanha, ele gerou um horrível conflito que duraria 13 anos e fragmentaria a glória da França por quase um século.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley