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26 de fevereiro de 2019

No momento em que Bolívar subiu a escadaria do palácio do vice-reino de Nova Granada naquele dia abafado de 10 de agosto, em 1819, seu nome já era conhecido ao resto do mundo. Em Washington, John Quincy Adams e James Monroe se perguntavam com apreensão se sua tenra nação, fundamentada nos princípios da autonomia e da liberdade, deveria apoiar a luta dele pela independência. Em Londres, renitentes veteranos da guerra da Inglaterra contra Napoleão alistaram-se para lutar pela causa de Bolívar. Na Itália, Lord Byron batizou seu barco com o nome de Bolívar e sonhou emigrar para Venezuela com a filha.

Mas haveria mais cinco anos de derramamento de sangue até que a Espanha fosse tocada das costas latino-americanas. No final dessa guerra selvagem e martirizante, um homem seria creditado por conceber, organizar e liderar sozinho a libertação de seis nações, abrangendo uma população uma vez e meia maior que a da América do Norte e uma área contígua de terra do tamanho da Europa moderna.

As adversidades que ele enfrentava — uma formidável potência mundial consolidada, as vastidões ermas e não trilhadas, as lealdades fracionadas de várias raças — teriam se mostrado desanimadoras para o mais capaz dos generais com exércitos poderosos ao seu dispor. Bolívar, no entanto, jamais fora soldado. Não tinha nenhuma formação militar formal. No entanto, com pouco mais do que determinação e um dom para a liderança, ele libertou boa parte da América espanhola e estendeu seu sonho para um continente unificado.

Quando a fama de Bolívar cresceu, ele ficou conhecido como o George Washington da América do Sul. Havia boas razões para tal. Ambos vieram de famílias abastadas e influentes. Ambos foram ardentes defensores da liberdade. Ambos foram heroicos na guerra, mas temerosos quanto à condução da paz. Ambos resistiram aos esforços para que se tornassem reis. Ambos afirmaram o desejo de retornar à vida privada, mas foram chamados a formar governos. Ambos foram acusados de ambição desmedida.

As semelhanças terminam aí. A campanha militar de Bolívar durou duas vezes mais que a de Washington. O território que ele cobriu era sete vezes mais vasto e abarcava uma diversidade geográfica assombrosa: desde selvas infestadas de crocodilos até extensões dos Andes cobertas de neve. Ademais, à diferença da guerra de Washington, a de Bolívar não poderia ter sido vitoriosa sem o auxílio de tropas de negros e indígenas; seu êxito ao mobilizar todas as raças para a causa patriótica se tornou um momento decisivo na guerra pela independência. É correto dizer que ele liderou tanto uma revolução quanto uma guerra civil.

Bolívar, de Marie Arana