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27 de fevereiro de 2019

Enquanto Bolívar assumia a presidência com receios, ansioso para marchar em direção ao Peru, San Martín já esta lá, implantando uma ditadura em Lima. O general argentino estava na capital vice-real mais de um ano, depois de sitiar a costa e aguardar pacientemente a capitulação de Lima. No fim das contas, o vice-rei interino, general José de La Serna, foi obrigado a evacuar seu formidável exército, dispersando uma força de 10 mil homens até a fortaleza de Callao ou até cidadelas em Cuzco, Huancayo e Arequipa. Até 12 de julho de 1821, a nervosa cidade de Lima, intensamente espanhola, estava nas mãos de San Martín e seu exército libertador. Rendeu-se a ele sem nenhum derramamento de sangue.

Malgrado a ambição compartilhada entre San Martín e Bolívar, malgrado a narrativa histórica que os juntaria para sempre, eram homens acentuadamente diferentes. O argentino era reservado, altivo, impaciente com bajuladores, intolerante com frivolidades e excessos. Alto vistoso, tinha olhos e cabelos negros e lustrosos; sua tez era tão morena que corria o boato de que ele era filho de uma indígena.

Os aristocratas de Buenos Aires se referiam a ele como “o Índio”, “o Cholo”, “o Mulato”, “o Tape” (um cognome para índios guaranis). Relutante em falar sobre suas raízes, sobre sua data de nascimento — que é controversa — ou sobre qualquer coisa remotamente pessoal, nada fazia para dissipar essas fofocas. Aliás, declarou em uma reunião de caciques: “[…] Como eu também sou índio, vou acabar com os godos que lhes roubaram as terras de seus antepassados”.

De acordo com os registros históricos, porém, ele nasceu em uma família espanhola de Yapeyú, povoado no território guarani da Argentina. Seu pai foi governador de Yapeyú e era capitão do exército espanhol; sua mãe era criolla. Aos sete anos, San Martín zarpou com sua família para Cádiz. Com a tenra idade de onze, era cadete do exército espanhol. Ascendendo regularmente na hierarquia, o garoto foi enviado ao combate na África e na região mediterrânea; na mocidade, combateu com distinção na Batalha de Bailén — ao lado de Morillo —, defendendo a Península Ibérica contra Napoleão.

Modesto a ponto do ascetismo, San Martín rejeitava proventos e cerimônias grandiosas. Quando lhe ofereceram uma promoção a general da brigada depois que ele libertou o Chile, rejeitou duas vezes, dizendo ao seu governo que a aprovação dele era recompensa suficiente. Quando a jubilante cidade de Santiago o presenteou com dinheiro para reembolsar o custo de sua travessia andina, ele doou a quantia para a criação de uma biblioteca pública.

Era solene, tinha pouco autoconfiança, exasperava-se com facilidade. Não era propenso a despachos entusiásticos nem a oratória deslumbrante. Evitava a linguagem exagerada, preferindo manter um nobre silêncio. Não era particularmente lido, não era apto a citar grandes autores nem a acrescentar floreios espirituosos em línguas estrangeiras, como Bolívar tanto apreciava fazer. Mantinha-se enigmático, profundamente reservado, e essa qualidade misteriosa nem sempre era bem recebida. “Há uma timidez de intelecto”, comentou com um desdém uma inglesa; outro contemporâneo o qualificou de forma mais generosa: “É impossível saber o que se dá naquela alma impenetrável”.

Bolívar, de Marie Arana