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4 de março de 2019

Um oficial sueco escreveu: “Se Weide tivesse tido coragem de nos atacar, certamente teria vencido, pois estávamos extremamente cansados, mal tínhamos comido ou dormido por vários dias e, além disso, nossos homens estavam bêbados com o álcool que encontraram nas tendas moscovitas; portanto era impossível que os poucos oficiais que sobraram conseguissem mantê-los em ordem”. Entretanto, a ameaça no terceiro setor russo rapidamente evaporou.

Embora suas tropas não tivessem se engajado fortemente, Weide havia se ferido. Quando descobriu a rendição da ala norte, não teve estômago para continuar sozinho. Ao amanhecer, vendo-se sozinho e cercado pela cavalaria sueca, ele também se rendeu. Durante o restante da manhã, tropas espalhadas pelo campo de batalha se renderam aos suecos. Ao amanhecer, a ponte estava consertada e os russos derrotados começavam a cruzá-la. Carlos XII parou na ponte e observou as longas filas de soldados adversários conforme eles tiravam os chapéus, estendiam suas bandeiras aos pés dele e marchavam no sentido leste, de volta para a Rússia.

A notícia da batalha de Narva, em novembro de 1700, causou uma impressão sensacional por toda a Europa. Relatos da vitória brilhante e intensos elogios ao jovem monarca da Suécia se espalharam em direção ao Oeste. Em alguns locais, houve a satisfação gerada humilhação de Pedro da Rússia, e também muita zombaria pela “fuga” do czar na véspera da batalha (havia se retirado temporariamente por não considerar possível uma batalha conclusiva naquele momento). Um medalhão lançado por Carlos, ostentando um homem com o rosto de Pedro fugindo, causou muitas gargalhadas. Leibniz, que antes havia demonstrado interesse na Rússia, agora expressava sua admiração para com a Suécia e também seu desejo de que “o jovem monarca reine de Moscou e até o rio Amur”.

Embora a “maturidade” e o comando de Rehnskjold fossem parte indispensável do sucesso alcançado, também é verdade que sem a “resolução firme e imutável” do rei para atacar não haveria ocorrido uma vitória em Narva. Certamente o próprio Carlos aceitara a imagem que o povo havia criado sobre ele como um guerreiro invencível. Carlos estava exuberante — quase intoxicado pela vitória — quando passou pelo campo de batalha com Axel Sparre, tagarelando animado como um adolescente. “No entanto, não há prazer em lutar contra os russos”, declarou com desdém, “pois eles não resistem como outros homens, mas simplesmente fogem. Se o rio estivesse congelado, talvez não tivéssemos matado nem um deles. Foi como o Faraó no Mar Vermelho. Por todos os cantos era possível ver cabeças de homens e cabeças e pernas de cavalos saindo da água, e nossos soldados atiravam contra eles como se fossem patos selvagens”.

Desse momento em diante, a guerra tornou-se o grande objetivo da vida de Carlos. E, nesse sentido, embora Narva fosse a primeira grande vitória do monarca, também era o primeiro passo a caminho de sua destruição. Uma vitória alcançada com tanta facilidade ajudou a convencer Carlos de que ele era invencível. Narva, somada ao dramático sucesso do súbito ataque a Zelândia, contra a Dinamarca, deu início à lenda de que, acompanhado de um punhado de homens, Carlos XII era capaz de vencer exércitos enormes — uma lenda na qual o próprio Carlos acreditou.

Narva também fez brotar em Carlos um perigoso desprezo por Pedro e pela Rússia. A facilidade com a qual havia vencido o exército de Pedro o convenceu de que os russos eram desprezíveis como soldados e que ele, Carlos, podia virar as costas para eles durante quanto tempo quisesse. Anos mais tarde, na poeira do verão ucraniano, o rei da Suécia pagaria caro por esses momentos de exaltação no campo de batalha coberto por neve em Narva.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie