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5 de março de 2019

Nas seis semanas seguintes à partida de seu neto para assumir o trono da Espanha, Luís XIV reconheceu que não seria possível evitar a guerra. As outras potências europeias, grandes e pequenas, não aceitariam uma superpotência Bourbon estendendo-se do Canal da Mancha até Gibraltar, atravessando a Itália (Milão e Nápoles) e as regiões mais ricas dos Países baixos (Bélgica), e controlando também o comércio de metade do mundo.

Em setembro de 1701, o rei deposto pela Revolução Gloriosa, Jaime II morreu em Saint-Germain, e Luís, “comovido pela visão de meu primo em seu leito de morte”, reconheceu imediatamente seu filho de 13 anos como Jaime III da Inglaterra, uma atitude insensata e provocativa que, como o próprio Luís reconheceu, “não teria agradado nem ao cardeal Richelieu nem ao cardeal Mazarin” — ultra-pragmatistas que nem por um segundo favoreciam os sentimentos acima dos próprios interesses. No fim do mesmo mês, representantes da Grande Aliança reuniram-se novamente em Haia para assinar um novo tratado de oposição à França.

“Há muitos príncipes contra nós”, continuou Luís no último dia de 1701, “e nosso reconhecimento de Jaime III não ajudou muito. Mas temos pelos menos um aliado garantido: a Espanha”. Embora Luís estivesse persuadido de que podia reconhecer Jaime sem romper o Tratado de Rijswijk que tinha posto fim à Guerra dos Nove Anos, a Aliança tinha uma visão diferente. Na Inglaterra, algum tempo antes naquele mesmo ano, o Parlamento tinha reafirmado sua posição em relação a Jaime ao estabelecer, nas palavras de Luís, “uma lei de sucessão para o trono inglês. O soberano deve professar a fé anglicana conforme definido pela lei. Portanto, todos os príncipes católicos serão excluídos”. Consequentemente, Guilherme de Orange tinha podido usar o fato de Luís reconhecer Jaime para persuadir seu relutante Parlamento a votar os recursos para uma nova guerra contra a França.

A questão da sucessão espanhola, insistiu Guilherme, também dizia respeito à sucessão inglesa. Em meio a uma explosão pública de patriotismo protestante, o Parlamento tinha aceitado seu argumento e os preparativos para a campanha tinham se iniciado — mas apenas para serem interrompidos no início de março de 1702 pela morte súbita de Guilherme. Como sua esposa Maria havia morrido antes dele, Guilherme foi sucedido por sua cunhada Ana — ou melhor, pela inteligente e controladora favorita de Ana, lady Sarah Churchill, cujo marido John, conde (e futuro duque) de Marlborough, agora assumiu o controle dos exércitos ingleses — a maioria deles, na verdade, mercenários alemães.

Em maio de 1702, a Inglaterra declarou guerra à França, na mesma época em que um exército imperial já estava irresolutamente em batalha contra as forças espanholas na Itália. Em julho de 1702, Luís XIV declarou guerra formalmente ao “imperador (Áustria), à Inglaterra, às Províncias Unidas (Holanda) e seus aliados — resumido, metade da Europa. Embora não pareça, é uma guerra defensiva […] Não é uma questão de ambição […] somos forçados a defender o trono e as legítimas prerrogativas de nosso neto, Felipe V, rei da Espanha” Para os franceses talvez fosse uma guerra defensiva, e sem dúvida também para o novo rei da Espanha, mas para todos os outros parecia mais uma continuação do antigo e claro desejo do ambicioso Rei Sol em obter a hegemonia europeia.

A luta se espalhou por territórios holandeses, alemães e espanhóis, trazendo a Dinamarca, Sabóia e vários estados italianos para os já poderosos exércitos aliados contra Luís e seu neto. Entrou pelo Canal da Mancha, pelo Atlântico, chegando à Nova Escócia e a Massachusetts, à Carolina do Sul e à Florida, às colônias do Caribe, ao Rio de Janeiro, atravessando o Chile e o Peru até chegar à costa oeste da África e às mal defendidas ilhas espanholas do Pacífico. Em certo sentido, a Guerra da Sucessão Espanhola tinha se tornado “a primeira guerra mundial”.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley