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6 de março de 2019

Quando a primavera de 1701 chegou, Carlos XII da Suécia ainda considerava a ideia de invadir a Rússia, mas com menos entusiasmo. Seu desprezo pelos soldados russos havia crescido e ele já os considerava indignos de serem combatidos. Tinha a impressão de que outra vitória sobre Pedro somente faria a Europa dar risada, ao passo que uma vitória sobre as tropas saxônicas disciplinadas de Augusto da Polônia faria o continente reagir positivamente. De forma mais prática, Carlos decidiu que não poderia marchar em direção à Rússia enquanto um exército saxão invicto estivesse operando em sua retaguarda.

Em junho, dez mil novos recrutas haviam chegado da Suécia, fazendo o exército de Carlos crescer para 24 mil membros. Deixando uma parte deles para enfrentar os russos, o monarca e o exército principal, composto por 18 mil membros, marcharam para o sul com o objetivo de atravessar o rio Duína próximo a Riga e destruir o exército de 9 mil saxões e 4 mil russos comandados por Steinau, um general saxão. O rio tinha 600 metros de um lado a outro, e atravessá-lo consistia em praticamente um desembarque anfíbio. Com a ajuda de uma cortina de fumaça criada com a queima de feno úmido e esterco para proteger os carregamentos dos soldados suecos e com o apoio de canhões pesados montados nas embarcações suecas ancoradas no rio, o golpe foi bem sucedido.

O próprio Carlos liderou a primeira onda da infantaria, afastando os medos de seus oficiais com a declaração de que ele morreria no momento escolhido por Deus, e não antes disso. Infelizmente para o rei sueco, todavia, sua cavalaria não pôde atravessar a água, e o exército saxão, embora terrivelmente maltratado, escapou. O comportamento das tropas que Pedro havia enviado para ajudar Augusto não se mostrou nada auspicioso. Quatro regimentos russos mantidos na reserva de Steinau entraram em pânico e fugiram antes mesmo de entrar na batalha. A consideração de Carlos pelo exército do czar tornou-se ainda menor.

Logo depois dessa vitória inconclusiva, em julho de 1701, Carlos, na época com 19 anos, tomou uma decisão estratégica que afetaria profundamente tanto a sua vida quanto a de Pedro: concentrar-se na derrota total de Augusto — eleitor da Saxônia e rei da Polônia — antes de invadir a Rússia. Na época, essa decisão parecia razoável. Atacar os dois inimigos ao mesmo tempo era impossível e, dos dois, a Saxônia estava ativa, enquanto a Rússia permanecia inerte. Ademais, a Saxônia e até mesmo a Polônia eram entidades limitadas, o eleitor da Saxônia e os exércitos poderiam ser encurralados e destruídos, ao passo que a Rússia, como provaria ser mais tarde, era tão vasta que a lança sueca poderia penetrar profundamente e ainda assim não atingir o coração do enorme organismo.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie