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10 de março de 2019

Carlos XII sentia a moralidade insultada. Augusto o Forte, eleitor da Saxônia, rei da Polônia, seu primo, governante europeu culto, era um patife traiçoeiro, muito pior do que o czar. Pedro da Rússia pelo menos havia declarado guerra antes de atacar; Augusto simplesmente marchou Livônia adentro sem emitir qualquer aviso. Como Carlos poderia ter certeza de que, mesmo se alcançasse a paz com Augusto, o rei-eleitor não voltaria atrás em sua palavra e o atacaria novamente assim que os suecos invadissem a Rússia? Em suma, Carlos disse a um amigo que considerava “insultante a mim mesmo e à minha honra manter qualquer relação com um homem que agiu de forma tão vergonhosa e desonrosa”.

O monarca sueco também estava perplexo e preocupado acerca da relação de Augusto com a enorme nação polonesa, sobre a qual o eleitor exercia um reinado intranquilo. Até o presente, Augusto vinha conduzindo a guerra contra a Suécia somente de sua posição de eleitor da Saxônia. Agora, o exército saxão havia se retirado para o que era, efetivamente, o santuário da Polônia, e o exército de Carlos não podia segui-lo. O cardeal Radiejowski, primaz da Polônia, insistia que a nação polonesa não tinha nada a ver com a guerra contra a Suécia, a qual o rei Augusto havia causado sem consentimento e que, portanto, Carlos não devia colocar os pés em solo polonês.

Em uma carta ao cardeal, em trinta de julho de 1701, Carlos respondeu que Augusto havia perdido a coroa polonesa ao guerrear sem o consentimento da nobreza e da nação polaca, e a única forma de a Polônia assegurar a paz era reunir uma Dieta, destronar Augusto e eleger um novo rei. Ele garantiu que, até receber a resposta do cardeal, o exército sueco não violaria a fronteira da Polônia para atacar Augusto em solo polaco.

Finalmente, na primavera de 1702, o impaciente monarca sueco invadiu a Polônia, marchando em direção a Varsóvia e Cracóvia, decidido a fazer com as próprias mãos o que os poloneses haviam se recusado a fazer: retirar Augusto do trono. Em nove de julho de 1702, diante de 12 mil soldados suecos, Carlos levou 16 mil saxões, sob o comando do rei Augusto, a uma batalha próxima a Klissow. Novecentos suecos foram feridos ou mortos — incluindo o cunhado de Carlos, Frederico de Holstein-Gottorp — em troca de 2 mil baixas e 2 mil prisioneiros saxões.

No entanto, a vitória de Carlos em Klissow foi incompleta: mais uma vez, o exército de Augusto havia se retirado para retomar a luta em outra ocasião. E, assim, a aventura polaca de Carlos — aventura essa que já se tornava uma obsessão — continuou, estendendo-se por outros seis anos. Apesar dos pedidos das Províncias Bálticas, dos apelos do Parlamento da Suécia e até mesmo do conselho de seus oficiais seniores, o rei sueco se recusou a voltar-se contra a Rússia até que sua vingança contra Augusto estivesse completa. De acordo com um de seus generais: “Ele acredita ser um agente de Deus na Terra, enviado para punir todos os atos de impiedade”.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie