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11 de março de 2019

Apesar das frustrações políticas para Carlos XII da Suécia, os anos na Polônia, de 1702 a 1706, foram uma era de glória militar, de explorações heroicas, de ampliação da lenda. No outono de 1702, por exemplo, seguindo a batalha de Klissow, Carlos, com apenas trezentos suecos, foi até os portões da Cracóvia e, de seu cavalo, gritou: “Abram os portões!”. O comandante da tropa abriu o portão apenas ligeiramente e colocou a cabeça para fora para ver quem estava gritando. No mesmo instante, Carlos o golpeou com o chicote no rosto, os suecos atrás dele forçaram a abertura do portão e os defensores amedrontados se renderam sem dar um único tiro.

Inevitavelmente, a guerra na Polônia afetou bastante o povo local. Ao entrar no país, Carlos havia prometido exigir apenas as contribuições absolutamente essenciais a seu exército, mas manteve essa promessa por apenas três meses. Depois que as tropas polonesas lutaram ao lado do rei Augusto em Klissow, Carlos resolveu se vingar garantindo que o exército sueco fosse totalmente sustentado pela terra do país. Da Cracóvia, os suecos extraíram 130 mil táleres, dez mil pares de sapato, cinco toneladas de tabaco, oitenta toneladas de carne e trinta toneladas de pão em três semanas. Conforme a guerra se arrastava, as ordens de Carlos a seus generais tornaram-se ainda mais implacáveis: “os poloneses devem ser aniquilados ou forçados a se unirem a nós”.

Ano após ano, as batalhas e vitórias se acumulavam, embora o triunfo final nunca parecesse se aproximar. Enquanto isso, chegavam as notícias de outras vitórias — vitórias russas, ao longo do Báltico: o cerco e a queda de Schlüsselburg, a captura da extensão do rio Neva, a fundação de uma nova cidade — São Petersbugo — e de um novo porto no Golfo da Finlândia, a destruição das flotilhas suecas nos lagos Ladoga e Peipus, a terrível devastação da província sueca da Livônia e a captura de populações inteiras de súditos suecos, a queda de Dorpat e Narva. Essa sequência sombria foi acompanhada por uma torrente de apelos urgentes dos súditos de Carlos. Todos imploravam para que o monarca desistisse de sua campanha na Polônia e marchasse para o norte para resgatar as províncias do Báltico. “Para a Suécia, esses eventos têm uma importância muito mais significativa do que quem ocupa o trono polonês”, disse Piper, seu principal ministro.

A reação de Carlos foi a mesma a todos: “Mesmo que eu tenha de ficar aqui cinquenta anos, jamais sairei do país antes de Augusto ser destronado”. “Acreditem, eu daria a paz a Augusto imediatamente se pudesse confiar em sua palavra”, confessou a Piper. “No entanto, assim que a paz fosse alcançada e começássemos a marchar em direção à Moscóvia, ele aceitaria o dinheiro russo e nos atacaria pela retaguarda. E então nossa tarefa ficaria ainda mais complicada do que já é agora.”

Em 1704, os eventos na Polônia começaram a se desenrolar a favor de Carlos. Ele capturou a cidade-fortaleza de Torun, com cinco mil soldados saxões no interior. Com Augusto enfraquecido, a Dieta Polonesa aceitou a tese de Carlos de que a Polônia seria um campo de batalhas enquanto Augusto permanecesse no trono polaco e, em fevereiro de 1704, ele foi formalmente deposto. O candidato original de Carlos para o trono, Jaime Sobieski, filho do famoso rei polonês Ian III Sobieski, havia convenientemente sido sequestrado pelos agentes de Augusto e aprisionado em um castelo na Saxônia; então, Carlos escolheu um nobre polonês de 27 anos, Estanislau Leszczynski, cujas qualificações incluíam inteligência modesta e uma forte aliança com o monarca sueco.

A eleição de Estanislau foi descaradamente fraudada. Uma sessão com poucos membros da Dieta foi reunida por soldados suecos e convocada em dois de julho de 1704 em um campo próximo a Varsóvia. Durante os procedimentos, cem soldados suecos foram colocados à distância de um tiro de mosquete para “proteger” os eleitores e “ensiná-los a falar a língua certa”. O candidato de Carlos foi proclamado rei Estanislau I da Polônia.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie