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12 de março de 2019

Bolívar escreveu ao seu vice-presidente em Angostura, na Venezuela, para comunicar que Bogotá já era sua. O vice-rei de Nova Granada, Juan de Sámano, fugira com tal pavor que deixara um saco de ouro em sua escrivaninha, meio milhão de pesos no Tesouro e armas e munição suficientes para suprir um exército inteiro. No decurso de uma única batalha, Bolívar derrubara seu governo ferro. Mas foi somente algumas horas antes da chegada do Libertador que Sámano percebeu que seu reinado tinha terminado.

Sámano estava jantando com seus cortesãos, alegremente desavisado de que seu exército tinha sido aniquilado e seu oficial comandante fora feito prisioneiro. Uma vez que o brigadeiro Barreiro mentira para ele sobre o resultado da batalha no Pântano de Vargas, declarando-se vitorioso, o vice-rei achou que os soldados esfarrapados de Bolívar não eram uma ameaça e o exército espanhol era invencível. Estivera contando vantagem sobre Barreiro aos seus comensais naquela noite de 8 de agosto, quando um oficial irrompeu na sala com as notícias de que o exército real fora derrotado em Boyacá, o comandante fora feito prisioneiro e as forças patriotas estavam se aproximando depressa da capital.

“Tudo está perdido”, lamentou-se o oficial, “Bolívar está em cima…”. Como narrou um historiador da época, referindo-se ao vice-rei, “todas as suas bravatas anteriores se converteram em estupor […] e agora só pensava em se salvar”. Ele fugiu para o oeste até o rio Magdalena disfarçado de camponês, embarcou incógnito para a viagem de 800km até Cartagena e acabou por atravessar os mares rumo à Espanha. Quando Bolívar despachou uma divisão para detê-lo, ele já havia partido, perdido em meio à multidão — um viajante a mais em uma movimentada via fluvial.

No que lhe dizia respeito, a guerra não terminara com a libertação de Bogotá. Ainda havia muito que levar a cabo; Caracas não estava livre, o general Morillo ainda estava à solta e, apesar de todos os avanços patriotas, a Espanha ainda controlava uma porção de localidades vitais: Coró, Cartagena, Cúcuta, Pasto, Quito, o vice-reino do Peru. É inquestionável que Bolívar ficou empolgado com a vitória em Boyacá e confiante em suas consequências, mas não fez nenhuma declaração pública. Manteve seus generais em ação, arregimentou prisioneiros para o lado patriota e se empenhou com afinco para formar mais tropas.

A comemoração oficial da vitória de Bolívar foi realizada em dezembro de 1819, e Bogotá inteira se mobilizou para as festividades. Poucos granadinos ainda compreendiam quão importante era sua vitória. Em 75 dias, com uma manobra totalmente improvisada, Bolívar libertara Nova Granda e abrira caminho para a libertação de boa parte da América espanhola. Sua marcha sobre a cordilheira tinha muito em comum com a de Aníbal sobre os Alpes, exceto que o terreno e o clima eram mais árduos nos Andes e que Aníbal levara anos para preparar-se para o desafio. San Martín também atravessara os Antes, no extremo sul do continente, mas, tal como Aníbal, havia treinado seus soldados com anos de antecedência.

A genialidade de Bolívar foi realizar a proeza como uma improvisação, moldar sua estratégia na hora. Ele havia executado todas as máximas que Napoleão havia feito na Europa e no Egito — destrua o exército, tome a capital, conquiste o país —, mas tudo em um único movimento abrangente. Como o próprio Bolívar escrevera profeticamente quatro anos antes: “O fraco precisa de uma longa luta para vencer; o forte […] trava uma batalha e um império desaparece”.

Bolívar, de Marie Arana