#737

13 de março de 2019

Na Argentina, San Martín revelou-se um brilhante general. Distinguiu-se na decisiva batalha de San Lorenzo, em fevereiro de 1813, defendendo o porto de Buenos Aires contra a armada espanhola e ganhando tanta fama que lhe foi concedido o comando do Exército do norte argentino.

Enquanto Carlos Alvear e outros se dedicavam à fundação da república, San Martín aparentemente se restringia à atuação militar. Mas discretamente tramava a consecução de um intento secreto: um plano para avançar além das fronteiras da Argentina independente e libertar a América desde o Chile até o Peru. Na relativa reclusão dos Andes, passou anos, como descreve um historiador, “conspirando, correspondendo-se intrigando ao seu modo obscuro […], buscando salvar sua sublime ideia da marcha sobre Lima dos perigos que a ameaçavam”.

Tinha um categórico desinteresse pela política argentina, recusava todas as promoções e não tomava parte da constituição da nova nação. Com determinação obstinada, pressionou para avançar rumo ao norte e conseguiu ser nomeado governador intendente de Cuyo, uma aprazível região montanhosa situada na fronteira chilena. Foi ali que formou e treinou o Exército dos Andes, acabando por convencer o diretor supremo da Argentina, Juan de Pueyrredón, a permitir que conduzisse seus homens sobre a cordilheira até o Chile.

Embora a Argentina estivesse chocada com a pobreza e o governo mal conseguisse administrar seus próprios assuntos, Pueyrredón deu a San Martín o que ele queria. Em novembro de 1816, o diretor supremo escreveu o seguinte para o seu general: “Está dada a ordem para que lhe remetam as cem arrobas de charque que você me pede, para meados de dezembro ficarão prontas […] Vão quatrocentos arreios. Vão hoje, em um caixote, os dois únicos clarins que se encontraram. Vão os 2 mil sabres de reposição que me pede. Vão duzentas tendas de campanha ou pavilhões […] Vai o Mundo. Vai o Diabo. Vai a carne. E não sei como me sairei com as arapucas em que me meto para pagar tudo isso […]. E com a breca! Não volte a me pedir mais, se não quiser receber a notícia de que amanheci pendurado em um tirante da fortaleza de Buenos Aires.”

San Martín não o decepcionou. Empenhou-se quase dois anos para montar sua máquina de guerra, operando uma fábrica clandestina em Mendoza que produzia balas a partir de sinos de igreja e cantis a partir de megafones. “Ele quer asas para canhões”, disse o padre fanático que dirigia a operação “e vai te-las”. Enquanto isso, San Martín disciplinou suas tropas com um rigor até então desconhecido no exército republicano.

Recrutou índios, libertou e alistou milhares de escravos — metade de sua infantaria seria composta por negros — e acolheu patriotas chilenos que tinham sido forçados a sair de Santiago com a reconquista da cidade rebelada pela Espanha em 1814. Era rígido com seus soldados e não tolerava indisciplina, mas os motivava a grandes sacrifícios. “Se um espanhol resistir”, disse-lhes, “partam-lhe a cabeça como uma abóbora”. Se um soldado republicano ficasse tão incapacitado que não conseguisse andar, era deixado a própria sorte no campo de batalha. Até o final de 1816, ele tinha uma aguerrida e disciplinada força de combate.

Em fevereiro de 1817, junto com Bernardo O’Higgins (filho ilegítimo de um antigo vice-rei do Peru), San Martín conduziu um exército de 4 mil homens sobre as alturas nevadas do monte mais alto das Américas, o Aconcágua, realizando uma das mais espantosas proezas dos anais da história militar. Quando os sobreviventes alcançaram o outro lado, surpreenderam o exército espanhol e o esmagaram na Batalha de Chacabuco.

O campo de extermínio ficou coberto de espanhóis dizimados, com seus crânios partidos e escancarados como abóboras esmagadas. Com típica economia, San Martín comunicou a Buenos Aires: “Em 24 dias fizemos a campanha, atravessamos as cordilheiras mais elevadas do globo, acabamos com os tiranos e demos liberdade ao Chile”.

Bolívar, de Marie Arana