#743

20 de março de 2019

Os tutores de Carlos XII da Suécia descobriram que ele tinha uma mente ágil e aprendia com facilidade. Não gostava muito da língua sueca e sempre apresentava nela problemas de fala e de escrita. O alemão, a língua da corte de todos os reinos ao norte, vinha com mais facilidade para ele, que o utilizava como sua língua materna. Tornou-se extremamente proficiente em latim, língua que gostava de falar e de ouvir em palestras universitárias. Aprendeu francês, mas, apesar da aliança tática com Luís XIV durante os anos de governo, não gostava de falar a língua; todavia, lia-a com facilidade e admirava o teatro francês. Ao longo de seus quinze anos de campanha no continente, leu e releu Corneille, Molière e Racine.

O conceito de viagem o empolgava bastante, e ele devorava relatos e ilustrações de viajantes e exploradores. Na infância, desejara ansiosamente ter um irmão que pudesse governar a Suécia enquanto ele mesmo viajasse o mundo. Era fascinado por história e biografias, especialmente a vida de conquistadores militares — Alexandre, o Grande, Júlio César e Gustavo Adolfo; posteriormente, passou a levar consigo uma biografia de Alexandre em todas as campanhas, às vezes fazendo comparações específicas entre as conquistas militares do macedônio e as suas próprias.

Carlos tinha um interesse sincero por religião. Na infância e juventude, passava todas as horas da manhã com um bispo, discutindo um a um os livros da Bíblia. Também nutria interesse pela matemática e, como Pedro da Rússia, por sua aplicação nas artes da balística de artilharia e fortificações. Embora os tutores admirassem sua rápida assimilação dos conteúdos, preocupavam-se com sua força de vontade, que com frequência parecia pura obstinação. Descobriram que, uma vez que o príncipe concluísse que estava certo, era impossível fazê-lo mudar de opinião.

Em 1706, a aparição dramática de Carlos e seu exército sueco no coração da Alemanha fez fortes tremores sacudirem a Europa. Na Saxônia, o jovem monarca estava mais visível do que nunca no continente, e a curiosidade de seu respeito não tinha limites. Cada movimento, humor e hábito era alvo de escrutínio; viajantes planejavam suas jornadas de modo a passar pelos quartéis suecos em Altranstadt na esperança de vislumbra-lo.

Entre os monarcas e seus ministros e generais, a curiosidade misturava-se com preocupação. Era entendido que Carlos havia chegado para colocar o selo formal na remoção de Augusto da Saxônia do trono polonês, mas, agora que isso havia sido alcançado, o que estaria por vir? Pedro da Rússia continuava em guerra contra a Suécia, mas muito distante. O exército sueco, veterano e invicto, estava acampado na Europa Central a pouco mais de 300 km de Reno — principal palco de batalha da Guerra da Sucessão Espanhola. Em qual direção o jovem monarca apontaria suas baionetas invencíveis? Ao longo do inverno e da primavera de 1707, embaixadores e outros emissários reuniram-se em volta do rei sueco em busca de respostas.

O embaixador de Luís XIV sugeriu unir o exército sueco com o do marechal Villars da França contra a Grande Aliança. Depois, França e Suécia poderiam dividir os estados alemães entre si. Os protestantes da Silésia pediram para que Carlos permanecesse na Alemanha para protegê-los do imperador católico (com uma ameaça de marchar contra Viena, Carlos conquistou para o povo da Silésia o direito de reabrir as igrejas luteranas; de fato, o imperador José afirmou ter sorte pelo rei da Suécia não ter exigido que ele se tornasse luterano).

No entanto, de todos os visitantes que foram até o castelo de Carlos na Saxônia, o mais famoso foi John Churchill, duque de Marlborough, figura fundamental tanto militar quanto politicamente na coalizão contra a França. Logo que Carlos entrou na Saxônia, o duque ficou alarmado pelo fato de o impetuoso jovem monarca e seu antagonismo voltado ao Império Habsburgo poderem perturbar o delicado equilíbrio entre os poderes católico e protestante posicionados contra a tentativa de Luís XIV de conquistar a hegemonia europeia.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie