#744

21 de março de 2019

Juntando forças com O’Higgins e o veterano almirante britânico lorde Cochrane, San Martín logo dominou boa parte da costa ocidental da América do Sul. O infame Cochrane — o “Lobo dos Mares”— , um extravagante escocês condenado por fraude financeira em Londres, recebera o comando integral da armada chilena e, praticamente destruindo a esquadra espanhola no Pacífico, possibilita-la a San Martín empreender uma bem-sucedida expedição ao Peru.

San Martín e seus soldados entraram furtivamente em solo peruano em meio à névoa de agosto de 1820, enquanto Bolívar negociava a paz com Morillo na Venezuela. Desembarcando nas areias brancas de Paracas, não longe das antiquíssimas e enigmáticas Linhas de Nazca, suas tropas sossegadamente avançaram por terra. Sem demora, a refulgente cidade de Lima — aquele centro de poder, a cobiçada Cidade dos Reis — cairia sem que uma espada sequer fosse erguida contra ela.

No decurso de quase um ano, San Martín sitiou-a até deixá-la à beira da fome. Assustou os brancos ricos de Lima com seu exército de negros e cholos (nativos mestiços). Virtualmente crivou o Peru de agentes secretos, conquistando a simpatia dos maçons espanhóis. Negociou habilmente com o vice-rei Joaquim de la Pezuela, insinuando que ele poderia nomear sua própria regência para governar um Peru independente.

Em janeiro de 1821, uma insurreição de oficiais do exército espanhol depôs o vice-rei e o general La Serna fincou-se no poder. Dali a seis meses, após negociações infrutíferas com San Martín, o novo vice-rei e seu exército permanente abandonaram a capital, consumidos pela fome. Um grande tremor de terra assolou a costa, como se para marcar a histórica evasão espanhola. Apavorados, os brancos de Lima se lastimavam de que os espectros dos enfurecidos incas estivessem em via de infligir sua vingança. Em 12 de julho, o general patriota entrou na capital sem nenhuma oposição. Fazia um dia gélido — um daqueles dias úmidos e nublados do inverno litorâneo —, e o lugar parecia invariavelmente cinzento, inescrutável.

San Martín era a quintessência do decoro e tomou todas as precauções para minimizar sua portentosa vitória. A princípio alojou-se em um mosteiro, acompanhado por um só ajudante, e depois se mudou discretamente para o palácio governamental, onde se instalou com um delegação completa de assistentes. Duas semanas depois, com um formidável exército de peões por trás de si, nomeou-se Protetor, hasteou sua bandeira na praça central e declarou a Cidade dos Reis um bastião da liberdade.

Bolívar, de Marie Arana