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28 de março de 2019

O ministro inglês no acampamento de Carlos XII, John Robinson, havia enviado a Londres uma previsão sombria sobre o papel que um Carlos vitorioso poderia ter como árbitro da Europa na Guerra da Sucessão Espanhola. “Que ele favorecerá os aliados, isso é muito incerto”, escreveu Robinson. “Que ele os forçará a uma paz desvantajosa não é improvável, que agirá contra eles é possível e, se fizer isso […] nós sofreremos o que ele quiser. Pois, supondo que a guerra na Polônia e na Moscóvia (Grande Guerra do Norte) esteja terminando, nem o imperador, nem a Dinamarca, nem a Prússia, nem qualquer príncipe ou estado alemão se atreverá a parecer contrariá-lo. Todos se curvarão à sua vontade e Inglaterra e Holanda também terão de fazer isso, ou estarão sozinhas”.

Marlborough entendeu que era preciso lidar com o volátil Carlos com extremo cuidado. Imediatamente após a invasão do rei à Saxônia, do duque escreveu a seus aliados holandeses: “Sempre que os Estados [Gerais dos Países Baixos] ou a Inglaterra escreverem ao rei da Suécia, devem tomar cuidados para que não haja ameaças na carta, pois o monarca tem um humor muito particular”. Lidar com Carlos requereria muito cuidado e discrição, além de tato para diplomacia e inteligência. Então Marlborough sugeriu que ele mesmo fosse ver o rei escandinavo.

Durante a visita de dois dias ao campo sueco em abril de 1707, Marlborough não fez propostas formais. Tentou simplesmente averiguar as intenções do rei e os sentimentos do exército. Conhecendo a preocupação de Carlos pelo bem-estar dos protestantes alemães, o duque declarou a mais calorosa solidariedade da Inglaterra pela causa, mas também expressou a preocupação inglesa de que não deveria haver pressão contra o imperador católico em Viena até a conclusão da guerra com o mais perigoso inimigo católico, Luís XIV da França.

O visitante discretamente acompanhou o exército sueco, percebendo a quantidade mínima de artilharia e a falta de serviços hospitalares, serviços esses que suas forças consideravam normal. Ouviu conversas suficientes para concluir que uma campanha sueca contra a Rússia era certa e que os oficiais escandinavos esperavam que ela seria difícil e se estenderia por pelo menos dois anos. Marlborough deixou Altranstadt aliviado e contente com sua missão: “Espero que [a visita] tenha afastado totalmente as expectativas que a corte francesa mantinha pelo rei da Suécia”.

O ponto forte de Carlos — e ao mesmo tempo, sua fraqueza — era seu foco. O monarca buscava alcançar seus objetivos com obstinação, negligenciando todas as demais considerações. Fosse caçando uma lebre, atacando uma peça específica em um jogo de xadrez ou destronando um monarca hostil, ele fixava seus objetivos e não pensava em mais nada até alcançar seu propósito. E, assim como o outro comandante de campo real da época, Guilherme de Orange, Carlos estava convencido de que agia como instrumento de Deus para punir aqueles que haviam dado início a uma guerra “injusta”: Augusto da Saxônia, Frederico da Dinamarca e Pedro da Rússia. A conclusão de Marlborough estava correta, Carlos deixaria a Guerra da Sucessão Espanhola de lado e decidiria seu destino na Rússia.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie