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29 de março de 2019

Embora Turenne, Luxemburgo e Grande Condé há muito já tivessem se tornado lenda, os “verdadeiros soldados” da França incluíam alguns nomes admiráveis: Vendôme, Villars, o sexagenário marechal Bouffleers e, não menos, Sébastien Vauban, agora em seus 70 anos e ainda o engenheiro militar mestre da Europa. “Contra nós, temos dois ilustres generais: milorde Marlborough e o príncipe Eugênio”, escreveu Luís. “Também contra nós temos a discórdia entre meu neto, o duque de Borgonha, e meu sobrinho, o duque de Vendôme”.

O marechal duque de Vendôme, conhecido como Grande Vendôme, estava entre os mais ilustres de todos os generais de Luís; era adorado por seus homens e tinha uma impressionante lista de glórias militares em seu favor — embora o duque de Saint-Simon tenha escrito, maliciosamente, que “se você contar todos os homens que Vendôme diz ter matado ou aprisionado, descobrirá que representam a totalidade do exército inimigo”. Dezesseis anos mais novo que o rei, Luís gostava de chamá-lo de “meu sobrinho”, embora fosse, mais apropriadamente, um primo. Vendôme era um soldado precioso, um bebedor, praguejador e fornicador (embora apenas com homens) de primeira linha. Borgonha, ao contrário, neto de Luís e segundo herdeiro, era um pedante jovem de 26 anos, devotado a seu missal e à sua encantadora esposa, Maria Adelaide, que não retribuía sua paixão; na verdade, até seu obtuso pai, o delfim o achava insípido.

Na primavera de 1708, Luís tinha insensatamente enviado os dois para comandarem o exercito francês em Flandres. Enquanto o jovem Borgonha se submeteu à muito maior experiência de Vendôme, tudo correu bem; mas quando a dupla entrou em combate com Marlborough e o príncipe Eugênio juntos em Oudenarde, em julho, a arrogância de Borgonha e sua covarde incompetência custaram à França a batalha, juntamente com as vidas de cerca de 10 mil homens — cinco vezes o número de perdas dos aliados —, e a causa de Luís teve decisivamente de retroagir.

Vendôme e Borgonha voltaram para Versalhes em desgraça para terem audiências privadas com seu irado rei. Luís tinha compreendido a natureza do caso, porém tarde demais, e apesar de sua suposta preferência pelos “verdadeiros soldados”, ele optou por dar apoio a seu neto. “Não posso voltar as costas ao duque de Borgonha”, ele escreveu, “Muito embora eu tenha decidido, secretamente, não lhe dar o comando de nenhum outro exército. Para abrandar a desgraça secreta, preciso de um bode expiatório: monsieur Vendôme será esse bode expiatório”. Vêndome foi afastado do comando, embora apenas temporariamente; um tão “verdadeiro soldado” não podia ser descartado facilmente.

O desastre em Oudenarde, em 1708, deixou a França acabada aos olhos da maioria. Ele tinha sido precedido, em 1704 e 1706, pelas duas grandes batalhas de Blenheim e Ramillies, ambas vitórias deslumbrantes do duque de Marlborough. Blenheim tinha custado à França 30 mil dos 60 mil homens que lutavam ali; Ramillies tinha deixado os aliados no comando da totalidade dos Países Baixos espanhóis, obrigando Luís a transferir tropas da Espanha e Itália, deixando os exércitos no sul com poucos homens e, logo, derrotados. De Madri, madame des Ursins tinha escrito mordazmente para madame de Maintenon sobre “a perda do reino de Nápoles, embora não se esperasse mais que isso, já que não receberam reforços”.

Embora Luís tentasse desviar a atenção de Oudernarde com a celebração pública de uma vitória menor na Catalunha, ninguém se deixou enganar. Uma nova música foi ouvida pelas ruas de Paris e transmitida ao rei, que não achou a menor graça: “Todos conhecem a diferença; Entre César e o duque de Borgonha; César veio, viu e venceu; E, ai da França; Borgonha veio, viu e fugiu.”

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley