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30 de março de 2019

Em junho de 1709, as finanças da França estavam numa desordem irremediável; as linhas de suprimento militar estavam falhando; e na ausência de uma orientação firme por parte do Ministério da Guerra, os comandantes por toda a Europa ocidental tinham começado a atormentar madame de Maintenon na tentativa de conquistar o apoio do rei para suas próprias e inábeis ideias, incluindo planos detalhado para batalhas individuais. Mesmo quando estes planos eram aprovados — quase sempre tardiamente —, não havia garantia de que o comandante teria as tropas necessárias à sua disposição. “Houve muitas deserções em Flandres”, escreveu Luís XIV, cansado, em fevereiro de 1709, “principalmente por causa dos atrasos no pagamento dos soldados”.

“A guerra será vencida ou perdida conforme o estado de nossas finanças”, ele havia observado alguns meses antes. Estratégia, planos de batalha e bravura pessoal à parte, o que certamente estava fazendo diferença era o dinheiro. Como os franceses viriam a perceber só muito no futuro, as vitórias da Grande Aliança eram na realidade, “um triunfo do novo regime na Inglaterra sobre o velho regime característico da França”. O sistema político reformado da Inglaterra tinha engendrado um novo sistema financeiro capitalista; o dinheiro era levantado em mercados comerciais com juros pagos em moeda estável; isto, por sua vez, estava determinando, nas palavras de Luís, “se a guerra seria ganha ou perdida”.

Após as comemorações pela vitória na batalha de Blenheim, por exemplo, um empréstimo de quase um milhão de libras ao governo, “uma soma substancial naqueles dias”, foi aprovada em duas horas de sua flutuação na cidade de Londres, por “um grande número de pessoas ansiosas por provar sua confiança na causa nacional a [juros] de 6,66%”. Após a batalha de Oudenarde, outro empréstimo municipal, desta vez garantido pelo governo whig, ele próprio envolvendo muitos comerciantes da cidade, levantou 2.250 milhões de libras, e o confinante Parlamento britânico votou a verba para formar outras 10 mil tropas.

Em contraste, Luís dependia de seu decrépito sistema feudal de taxação por decreto real, suplementado por empréstimos à coroa (a serem pagos — se fossem — em moeda desvalorizada) e pela venda de cargos; a economia nacional era gradualmente abafada enquanto as pessoas faziam o possível para guardar seu dinheiro, muitas vezes, fisicamente, em suas próprias mãos. Em vez de circular, especialmente como empréstimos à coroa, a riqueza oculta da França “dormia” na forma de objetos cada vez mais valiosos nas casas dos ricos — pratarias fabulosas, serviços de mesa feitos de ouro, até mesmo móveis de alta qualidade. Resumindo, qualquer coisa menos propensa a perder seu valor do que a moeda do reino.

Até mesmo a Igreja escondia a maior parte de seu dinheiro: a paróquia de Santo Eustáquio em Paris tinha feito um gigantesco candelabro de prata, pesando mais de 90 quilos em vez dos 9 de costume. Numa desesperada medida para combater o problema, o controlador geral introduziu novas restrições ao uso de metais preciosos: eles já não podiam ser usados para a confecção de caçarolas de suflê, panelas ou grelhas, mas, para que os nobres não ficassem muito perturbados, o ouro e a prata ainda podiam ser usados para confecção de penicos, bacias, potes de chocolate, chá e café, candelabros de bolso e para cabo de bengalas. O candelabro de Santo Eustáquio, no entanto, foi confiscado e derretido para a compra da comida para os pobres, e o jejuante cardeal arcebispo Noailles acrescentou uma grande soma de dinheiro de seus próprios recursos pessoais.

“Esta questão do trigo me deixa atordoada”, queixou-se madame de Maintenon. “Em todos os mercados vê-se mais do que nunca se viu, mas seu preço continua subindo.” A exploração era desenfreada, e havia armazenagem, mas a genuína escassez também era recorrente. No verão de 1709, as relíquias de Santa Genoveva foram expostas em Paris, numa súplica por auxílio divino na terrível necessidade da cidade. E em Madri, como madame des Ursins contou, “estão fazendo uma grande procissão carregando as relíquias de Santo Isidoro e de sua esposa beatificada. Santo Isidoro foi um operário e as pessoas aqui estão muito confiantes de que ele protegerá suas plantações. Tudo isso é muito admirável, mas estou mais preocupada com esta praga de gafanhotos que baixou sobre os campos […]”. Naquele ano de procissões e pragas, o ano de 1709, a França chegou a seu ponto mais baixo da Guerra da Sucessão Espanhola.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley