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31 de março de 2019

Devastado pelo ópio, exaurido pela guerra, atordoado em labirintos políticos para onde quer que se voltasse, San Martín não encontrou nenhum conforto quando retornou a Mendoza. Seus antigos correligionários estavam fora do poder. Sua mulher, de 25 anos, e centenas de quilômetros dali, em Buenos Aires, morrera de tuberculose antes que ele pudesse chegar até ela. Em dois anos, ele e sua filha de oito anos se mudaram para um pacato subúrbio de Londres. Posteriormente foram a Bélgica e para a França.

Tinham uma existência precária — à base de uma pensão parca e irregular fornecida pelo Peru —, mas San Martín não estava tão doente quanto pensava. O Protetor permaneceria no mundo por mais 27 anos, sobrevivendo ao Libertador por duas décadas inteiras. Acabaria por transcender o rancor da derrota a ponto de afirmar isto sobre Bolívar: “Os sucessos que obtive na guerra da independência são realmente inferiores àqueles com os quais o general Bolívar contribuiu para a causa geral da América”. E ainda: “Quanto aos feitos militares de Bolívar, pode-se dizer que o fizeram merecer com razão ser considerado o homem mais extraordinário que a América produziu”.

San Martín era modesto demais. Foi por causa dele que o Peru se declarou uma nação sem despender uma gota de sangue. Chegara com um limitado exército de 4 mil homens e dispersara as bem mais poderosas legiões espanholas. Consumidos por febres em um clima insalubre, seus soldados haviam tomado Lima tão somente por forças de paciência. San Martín não era um mestre da improvisação, mas tampouco era um inconsequente ou um sanguinário. Ao sair furtivamente de Lima, não deixou Congresso nem Constituição, mas deixou leis por meio das quais se poderia proporcionar justiça, garantir segurança e governar a nação. Malgrado as críticas que ele sofreu ao longo do tempo em que esteve no poder, o Peru sempre se recordaria dele como o seu mais honorável herói. A honra, contudo, não seria suficiente para conferir ao Peru a sua plena emancipação.

Por mais que Bolívar pudesse ter aprendido com a rápida desgraça de San Martín, não tinha tempo para se demorar nisso. Com a partida de San Martín, Lima rodopiava em um vórtice político. Um Congresso recém-constituído nomeou uma junta de governo e apresentou uma Constituição, mas logo estava em polvorosa. Culpando San Martín por seus problemas e não querendo mais a ajuda de forasteiros, a junta rejeitou os batalhões colombianos que Bolívar enviara ao Peru e que agora se retiravam em pasmo e exasperação. O general espanhol José de Canterac, que espreitava perto dos portões de Lima, viu-se preparado para se aproveitar do vácuo. Em janeiro de 1823, ele foi atrás daquilo que restava do exército de San Martín em Moquegua e o desbaratou por completo. Ao final dessa batalha, os chilenos e os argentinos que tinham libertado Lima estavam mortos ou em grilhões.

Em desespero, o Congresso de Lima voltou-se para o militar mais respeitado do Peru. Andrés de Santa Cruz, que acabara de voltar dos combates ao lado de Sucre em Quito. Santa Cruz praticamente forçou o Congresso a designar o coronel José de la Riva Agüero para imperar sobre a periclitante cidade-Estado. Riva Agüero foi extremamente maquiavélico em sua busca de arrebatar todo o poder e silenciar seus inimigos pessoais. Proclamou-se presidente, mas seu poder começou a declinar tão logo ele assumiu o posto. Ele escreveu para San Martín, rogando-lhe que retornasse e ajudasse a controlar uma guerra civil. Riva Agüero fora um apoiador seu por longo tempo, mas também tivera um papel crucial na derrubada de Bernardo Monteagudo enquanto San Martín estava em Guayaquil, e passara a abominá-lo.

“Impossível!”, respondeu San Martín em carta em que o descompunha com aspereza: “malvado”, “canalha”, “alma negra”. Com os espanhóis cercando a cidade e os patriotas em furibunda discórdia, o presidente Riva Agüero suplicou o mesmo auxílio a Bolívar. Nada menos do que quatro delegações de peruanos viajaram de Lima a Guayaquil no decorrer dos meses seguintes para implorar ao Libertador que socorresse o Peru.

Bolívar, de Marie Arana