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3 de abril de 2019

Pedro da Rússia, Carlos XII da Suécia, Frederico IV da Dinamarca, Augusto II da Polônia, Luís XIV da França, Guilherme III da Inglaterra, Leopoldo da Áustria e maioria dos outros reis e príncipes daquela época, em algum momento deixaram suas diferenças serem resolvidas pela guerra. Ela era o árbitro final entre as nações dos séculos XVII e XVIII, assim como foi, de fato, no século XX. Rivalidades dinásticas, definições de fronteiras, posse de cidades, fortalezas, rotas de comércio e colônias, e também destinos dos reinados e impérios, eram todos decididos pela guerra. O axioma foi sucintamente descrito por um dos jovens oficiais de Luís XIV: “Não há juíz mais imparcial do que o canhão. Ele vai diretamente ao ponto e é incorruptível”.

Ao longo de 50 anos, durante a segunda metade do século XVII, o exército da França foi o mais poderoso e admirado da Europa. Suas forças eram de longe, as maiores do continente. Nos tempos de paz, o país mantinha um exército permanente composto por 150 mil homens — e esse exército se expandia, chegando a alcançar 400 mil em tempos de guerra. Durante a Guerra da Sucessão Espanhola, oito enormes exércitos franceses (enquanto outras nações quase sempre recorriam a mercenários), lutaram simultaneamente nos Países Baixos, no Reno, na Itália e na Espanha.

Graças ao monarca e a Louvois, os soldados franceses eram os mais bem-treinados e os mais bem-equipados da Europa. Graças a generais como Turenne, Condé e Vendôme, os franceses eram, em geral, também os mais bem-sucedidos. A impressionante derrota do marechal Tallard, realizada pelo duque de Marlborough e o príncipe Eugênio de Saboia em Blenheim, em agosto de 1704, foi a primeira grande derrota do exército francês desde o final da Idade Média.

Embora a arte de fortificações de Vauban nunca tenha sido superada, na época, assim como agora, os maiores comandantes — Marborough, Carlos XII, príncipe Eugênio — eram praticantes da guerra de movimento. Desses, o maior foi sem dúvida, John Churchill, duque de Marlborough, que comandou a Grande Aliança contra Luís XIV de 1701 a 1711 e que nunca participou de uma batalha que não tenha vencido ou cercou uma fortaleza que não tenha tomado. Em dez anos de guerra, lutando contra um marechal da França após o outro ele derrotou todos. E, quando a mudança política na Inglaterra lhe custou o comando, ele estava atravessando a grande barreira fortificada de Vauban a caminho de Versalhes.

Marlborough não se interessava pela guerra limitada e convencional da época; não queria conquistar uma cidade ou fortaleza específica. Sua crença era na ação grandiosa e decisiva, mesmo que ela viesse com grandes riscos. Seus objetivos eram a aniquilação do exército francês e a humilhação do Rei Sol em uma batalha em campo aberto. Estava pronto para arriscar uma província, uma campanha, uma guerra, até mesmo um reino, no transcorrer de uma única tarde.

Marlborough foi o mais bem-sucedido soldado de sua geração. Agia simultaneamente como comandante no campo, comandante supremo de coalizões e ministro das relações exteriores e possível primeiro-ministro da Inglaterra. Em termos de nossa mais recente grande guerra, era como se ele combinasse as funções e tarefas de Winston Churchill, Eden, Eisenhower e Montgomery.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie