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5 de abril de 2019

A desesperadora situação da França na Guerra da Sucessão Espanhola levou a representação de Luís XIV como pai do povo, amando-o como a seus próprios filhos. Foi um golpe de mestre em termos de relações públicas, assim como sua conclamação a seu emergente sentimento de nacionalidade comum enquanto franceses. Nessa conclamação churchiliana “avant la lettre”, Luís se identificou com seu povo, partilhando do sofrimento, oferecendo, por assim dizer, seu próprio sangue, trabalho árduo, suor e lágrimas.

Mas não foi um conclamação cínica. Luís era tão devotado a seu povo quanto à França e a seu trono: ele há muito havia compreendido que estes três elementos eram interdependentes e, possivelmente, não fazia distinção ente eles. Luís não assumiu nenhuma culpa — não dava para esperar tanto —, mas em seu apelo de 12 de junho de 1709, que logo se tornou lendário, ele revelou que afinal, e crucialmente, tinha aprendido que a França não podia permanecer forte e seu próprio trono não estaria seguro somente pela obediência de seu povo: ele também precisava de seu apoio.

A seu próprio modo, o apelo de Luís foi um documento revolucionário. Sua simples existência era uma admissão dos limites do absolutismo, uma indicação de que o rei tinha compreendido a lição que Jaime II não tinha aprendido na Inglaterra, e que Guilherme de Orange havia entendido muito bem: a lição de que, a não ser pela força, um povo não pode ser governado por muito tempo contra a sua vontade.

Em resposta a um apelo sincero de seu rei, o povo da França — soldados, camponeses, moradores das cidades — reuniu suas forças em favor de uma determinada resistência num momento de grande perigo. Este viria a se tornar seu momento de glória: “Notícias de Haia de 14 do corrente [mês] dizem […] que os aliados [têm] fortes ressentimentos contra o recente comportamento da França; e os franceses [estão] usando todos os esforços possíveis para animar os homens e defender seu país contra um vitorioso e exasperado inimigo”. Assim Joseph Addison e sir Richard Steele circularam a notícia em seu Tatler pelos cafés de Londres naquele mesmo mês de junho de 1709.

Em 9 de setembro, após três meses de manobras em Malplaquet, perto de Mons, um forte vital para a defesa da própria França. Esta terrível batalha, a mais sangrenta de todo o século XVIII, foi mais uma vitória para Marlborough. Mas ao custo de cerca de 20 mil homens, duas vezes mais do que os franceses haviam perdido, os aliados tinham conseguido manter terreno. O marechal Villars, gravemente ferido, tinha entregado o comando ao marechal Boufflers, que após seis horas de luta selvagem, tinha conduzido uma ordenada retirada francesa, deixando as tropas aliadas exaustas demais para a perseguição.

Em termos militares, foi uma derrota para os franceses, mas seu desempenho tinha sido valoroso e o orgulho nacional ficou intacto. “Se pela graça de Deus nós perdermos outra batalha como esta, vossa majestade pode estar certa de que nossos inimigos estarão acabados”, escreveu o marechal Villars ao rei. Para a Grande Aliança, o resultado em Malplaquet colocou em dúvida os custos de uma invasão bem sucedida. “Estou orgulhoso de meus súditos”, registrou Luís. “Apesar da guerra, da grande geada e da fome, os franceses estão apoiando seu rei e o Estado. Eles ouviram nosso apelo de junho, e a conduta de nossas tropas em Malplaquet nos deu esperança de futuras vitórias […] A França será salva”.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley