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14 de abril de 2019

A França foi salva da derrota na Guerra da Sucessão Espanhola. Mas não tanto pelo talento de seus generais, pela força de suas defesas ou pela determinação de seu povo, e sim pela morte inesperada, em 1711, do imperador José, que tinha sucedido a seu pai no trono do Sacro Império Romano em 1705. José, de apenas 32 anos, tinha morrido de varíola, deixando duas pequenas filhas, mas nenhum filho. Em consequência disso, seu trono foi devolvido a seu irmão, o arquiduque da Áustria, Carlos — o mesmo Carlos que estava lutando para tomar o trono espanhol do neto de Luís XIV.

A monumental aliança de potências europeias, que até agora vinha apoiando Carlos, de repente se viu na posição paradoxal de lutar para produzir exatamente aquilo que vinha tentando evitar: a concentração de poder em poucas mãos. Em outubro de 1711, Carlos foi eleito Sacro Imperador Romano; se a guerra chegasse ao fim em favor dos aliados, ele rapidamente controlaria o vasto império espanhol também. Liderado pelos holandeses e ingleses, os aliados concordaram que o momento era propício para diplomacia. Ao fim do ano, planos estavam sendo traçados para uma conferência de paz na cidade holandesa de Utrecht, que teve início em janeiro de 1712.

Embora a luta continuasse, em palcos cada vez menores, durante mais de dois anos. Ao longo de 1711, os exércitos da Aliança tinham mantido a vantagem. Apesar disso, o recém-eleito governo tory na Inglaterra, formado por proprietários de terra que se opunham aos citadinos whigs, que eram favoráveis à guerra, tinha iniciado negociações com Luís XIV “numa deserção gananciosa e traiçoeira” mantida em segredo de seus aliados e até de Marlborough, seu próprio comandante em chefe (um simpatizante dos whigs).

Em julho em 1712, a Inglaterra assinou uma paz separada com a França. Próximo ao fim desse mesmo ano, tendo sofrido perdas particularmente grandes nas campanhas de outono, os holandeses também concordaram com a paz, logo seguidos por forças aliadas menores. Com um império agora nas mãos, esperava-se que Carlos estivesse menos preocupado em conquistar outro; após a morte de seu irmão em 1711, ele tinha deixado Barcelona, seu último baluarte espanhol, para reivindicar o trono imperial em Viena. Mas, na verdade, ele se mostrou o mais determinado de todos os líderes da Aliança. Seus exércitos imperiais lutara, durante todo o ano de 1713, até sua derrota final pelos franceses, nos primeiros meses do ano seguinte.

Houve concessões e conciliações de todas as partes, mesmo enquanto a luta continuava. Carlos foi obrigado a abandonar suas pretensões à Espanha, mas seu Sacro Império Romano reconquistou quase todos os seus territórios alemães e adquiriu grandes regiões da Itália. A Espanha, que vinha mantendo uma guerra civil contra dois concorrentes ao trono, tornou-se, pela primeira vez, um país formalmente unificado — já que os catalães tinham sido massacrados por darem seu apoio ao lado perdedor. De sua decadente capital Madri, Felipe V, agora com 30 anos, passou a impor ao reino, à força, um governo centralizado ao estilo francês, ignorando a maior riqueza e vibração das províncias que não Castela. Com isso garantiu a sobrevivência de fortes ressentimentos regionais e enfraqueceu o desenvolvimento econômico e político do país por quase 300 anos.

Felipe tinha sido obrigado a renunciar a seu direito ao trono da França. Isso ele havia feito. Igualmente, seu irmão, o duque de Berry, e seu tio, o duque de Orléans, tinham renunciado formalmente a seu direito ao trono espanhol, aparentemente garantindo que não haveria nenhuma superpotência Bourbon na Europa. No entanto, como Luís XIV confidenciou a seu diário secreto, “Nem Felipe V, nem Berry, nem Orléans, nem eu damos qualquer valor a estas renúncias […] Todos os príncipes, seigneurs e magistrados franceses sabem que elas são contrárias às leis fundamentais da França e serão consideradas inteiramente nulas e sem efeito […] O embaixador inglês, graças a Deus, não tem a menor ideia disso”.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley