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15 de abril de 2019

Evidentemente, Luís XIV tinha aprendido pouco com os desastrosos e empobrecedores anos de guerra que ele próprio tinha provocado. A França não tinha ganhado quase nada “com todo esse desperdício de riqueza e perda de vidas”. Mas Luís agora tinha 75 anos de idade. O mundo deveria ser poupado de outras devastações inspiradas por sua falta de sagacidade. Em sua última e prolongada batalha para expandir a influência francesa na Europa e em suas colônias, ele involuntariamente tinha feito nascer uma grande e nova potência que ele mal considerava parte da Europa: a “pérfida Albion”, a Inglaterra, a verdadeira vitoriosa na Guerra da Sucessão Espanhola.

Com o conflito, a Inglaterra — ou, antes, a Grã-Bretanha, já que um Tratado de União em 1707 tinha unido este país formalmente à Escócia — certamente tinha conquistado territórios: um grande trecho do Canadá francês tinha se tornado britânico, bem como a ilha caribenha de São Cristóvão. A Grã-Bretanha também tinha conquistado dois pequenos, mas estrategicamente importantes territórios da Espanha: a ilha de Minorca, no Mediterrâneo Oriental, o o rochoso promontório de Gibraltar, ao sul. Para uma força naval aventureira, estas aquisições eram excelentes, e os britânicos conquistaram ainda mais com a perda holandesa de direitos de comercialização no Mediterrâneo e na América do Sul, o que acabou por reduzir seus antigos e maiores rivais comerciais a “Não mais que uma chalupa na esteira do navio da Inglaterra”.

A França foi obrigada a aceitar a Grã-Bretanha como sua principal nação de comércio e desarmar as defesas de Dunquerque, que poderiam ter ameaçado o comércio britânico pelo Canal. E, essencialmente, a Grã-Bretanha ganhou da Espanha o famigerado Asiento, o direito exclusivo de fornecer escravos — cerca de 20 mil ao ano — às muitas colônias espanholas da América do Sul.

No fim, ao assinar traiçoeiramente uma paz em separado com os franceses, os britânicos provaram-se mais perigosos como aliados do que como inimigos — em especial para os holandeses, que também tinham perdido território para o Sacro Império Romano e uma longa fila de fortificações para os franceses, graças ao tratado secreto de 1711. O Tratado de Utrecht tinha roubado dos britânicos toda a credibilidade que desfrutavam junto a seus antigos amigos na Grande Aliança, mas beneficiou-os em tantos outros aspectos que eles podiam se dar ao luxo de não se importar.

“A Inglaterra quer dominar o comércio mundial”, Luís tinha observado. De fato, auxiliada substancialmente, embora inadvertidamente, por suas próprias ações ao longo do século XVIII, ela faria exatamente isso. Entretanto, após décadas de exaustivo militarismo hegemônico e com a preocupante e nova força, ao leste, da Rússia de Pedro o Grande (que havia surpreendido a Europa derrotando Carlos XII da Suécia e levando o império sueco ao colapso), os europeus concordaram em partir para algo mais próximo a um equilíbrio de forças no continente. Isso duraria até o surgimento de outro expansionista francês, noventa anos depois, na pessoa de Napoleão Bonaparte.

A Esposa Secreta de Luís XIV, de Veronica Buckley