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17 de abril de 2019

Cada vez mais o imperialismo era visto como expressão de vitalidade e poder de uma nação e um investimento para o futuro, e não mais como meio de assegurar espaço para expansão. Como afirmou o almirante Tirpitz em 1895, quando sonhava com um grande Império e uma grande marinha alemã: “Em minha opinião, no próximo século a Alemanha será rapidamente alijada de sua posição de grande potência se não defendermos, imediata e sistematicamente e com toda a energia, nossos interesses marítimos em geral, quando menos porque a nova e grande realização nacional e os benefícios econômicos decorrentes constituirão sólido paliativo contra sociais-democratas, instruídos ou não.”

Não importa que a maioria das novas colônias não fosse autossustentável e que poucos europeus se dispuseram a mudar para a África ou a Ásia, preferindo ir para a América do Norte ou a do Sul ou para a Austrália. As escolas inglesas comemoravam o Dia do Império. “Desenhávamos union jacks,” lembrava um operário inglês, “enchíamos a sala de aula com bandeiras dos domínios e olhávamos com orgulho enquanto nos apontavam as áreas pintadas em vermelho no mapa mundi. ‘Esta, esta e esta,’nos diziam, ‘são nossas.’”

A antipatia mútua entre Alemanha e França era maior do que entre Alemanha e Inglaterra, e as relações também mais complicadas. Em cada um dos países se formavam estereótipos altamente depreciativos e assustadores do outro, graças, em parte, às inúmeras publicações, de textos escolares a romances populares. Interessante notar que nos dois países a Alemanha era geralmente mostrada como um homem uniformizado (embora para os franceses essa imagem fosse a figura semicômica e meio assustadora de um soldado malvado com bigodes enormes), enquanto a França era representada por uma mulher (nas imagens mostradas na Alemanha, desamparada ou em pose sensual, ou ambas). Na França, talvez em consequência da Entente Cordiale, o que fora “le vice anglais” passou a ser “le vice allemand”. Estudos acadêmicos franceses tentaram mostrar que os homens alemães eram mais propensos ao homossexualismo do que os franceses. O estudo dava como prova o fato de quase todos os homossexuais gostarem de Wagner.

Em toda a Europa havia quem lamentasse esse fervor nacionalista. O primeiro-ministro Salisbury odiava o que chamava “jingoísmo,” e J.A. Hobson, destacado jornalista e intelectual liberal, atacou “o patriotismo às avessas pelo qual o amor por seu próprio país se transforma em ódio por outra nação e uma feroz determinação de destruir a população da outra nação”. A preocupação com o impacto do nacionalismo sobre a guerra surgiu de fonte inesperada. Em 1890, Moltke o Velho, o marechal que planejara e conduzira as vitorias alemãs nas guerras pela unificação, disse ao Reichstag que a era das guerras “de gabinete,” quando esses conflitos eram decididos pelos governantes com propósitos limitados, tinha acabado: “O que temos agora são guerras entre povos, e qualquer governante prudente deve evitar uma guerra dessa natureza, com suas consequências incalculáveis.” As grandes potências, prosseguiu, teriam dificuldade para pôr fim a esses conflitos ou admitir derrota: “Senhores, pode ser uma guerra que dure sete anos, ou trinta — e ai de quem tocar fogo na Europa, de quem acender o estopim!”

Moltke morreu no ano seguinte, sem ver o aumento do nacionalismo e da intranquilidade na Europa, a retórica exaltada, as expectativas de que qualquer crise pudesse levar à guerra, os temores: de sofrer invasões, de espiões e, embora este termo ainda não tivesse sido inventado, de quintas-colunas acoitadas dentro das sociedades à espera do momento de tomar a iniciativa. Não viveu para ver as formas pelas quais o público passou a aceitar e até festejar a perspectiva de uma guerra e o modo como os valores do meio militar foram acolhidos pelos civis.

A Primeira Guerra Mundial, de Margaret MacMillan