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23 de abril de 2019

Naquele outono, alemães e aliados fizeram esforços desesperados para desbordar as posições do inimigo. As baixas se acumularam, mas a vitória continuava indefinida. No fim de 1914, 265 mil soldados franceses tinham morrido, e os ingleses perderam 90 mil homens. Alguns regimentos alemães sofreram 60% de baixas. No outono, os alemães perderam 80 mil homens somente nos combates em torno da cidade de Ypres. Com a aproximação do inverno, os exércitos dos dois lados cavaram trincheiras na esperança de retomar as operações na primavera. Mal sabiam que as trincheiras que cavaram desde a Suíça, passando pelas fronteiras leste e norte da França e chegando à Bélgica ficariam mais profundas, sólidas, aperfeiçoadas, e durariam até o verão de 1918.

Ernest Shackelton, o grande explorador polar, partiu para a Antártida no outono de 1914. Na primavera de 1916, no caminho de volta, ao passar pela estação baleeira na ilha Geórgia do Sul, perguntou quem tinha vencido a guerra na Europa e ficou espantado quando lhe disseram que ainda estava em curso. Indústrias, riqueza nacional, trabalho, ciência, tecnologia e até artes foram engajados no esforço de guerra. O progresso da Europa tantas vezes celebrado permitiu que os países aperfeiçoassem os meios de mobilizar seus vastos recursos, afinal, para a autodestruição.

As primeiras etapas da campanha selaram o modelo espantoso que vigoraria nos anos seguintes: ataques desfechados sem parar e defensores despejando o fogo letal de suas armas. Os generais tentavam quebrar o impasse com ofensivas maciças que causavam baixas pesadas. Nas frentes de combate, particularmente no Ocidente, no terreno encaroçado por crateras de granadas e cercas de arame farpado, a linha de contato mal se movia. À medida que seguiu seu curso, a guerra custou vidas em escala que achamos difícil de imaginar.

Em 1916, só a ofensiva de verão russa resultou em 1,4 milhão de baixas; 400 mil italianos foram feitos prisioneiros por ocasião da ofensiva de Conrad contra a Itália nos Montes Dolomitas; e houve 57 mil baixas inglesas no dia 2 de julho, primeiro dia da Batalha do Somme; e no fim dessa batalha havia 650 mil aliados mortos, feridos ou desaparecidos, o mesmo acontecendo com 400 mil alemães. Em Verdun, a luta entre a França e a Alemanha pela posse da fortaleza pode ter custado aos defensores franceses mais de 500 mil baixas e aos atacantes alemães, mais de 400 mil. Quando a guerra terminou em 11 de novembro de 1918, 65 milhões de homens tinham participado dos combates, e 8,5 milhões perdido a vida. Oito milhões eram prisioneiros ou simplesmente estavam desaparecidos; 21 milhões tinham sido feridos, e esse total inclui apenas ferimentos que puderam ser contados. Nunca se saberá quantos ficaram psicologicamente abalados ou destruídos.

O mundo do pós-guerra era muito diferente do mundo do pré-guerra, nada condescendente com as velhas hierarquias e os caprichos dos reis; sob muitos aspectos, um mundo feio. A Europa não fora “purificada” e o pior nem de longe ficara para trás. O violento desmoronamento da monarquia na Rússia e na Alemanha deixava buracos que seriam preenchidos pelo extremismo e por mais violência. A Rússia já estava mergulhada numa nova guerra civil que duraria cinco anos, adquirindo uma escala ainda mais pavorosa que a antecedente. Ela deixaria algo entre 8 e 10 milhões de vítimas de massacres, pogroms, doenças e fome, em circunstâncias e quantidades que só pareciam demonstrar que a crueldade e a destrutividade humanas alcançavam seu nível mais terrível.

A Alemanha passava por uma cruel e efêmera revolução comunista. Sua brutal repressão veio a ser o difícil berço em que a democracia alemã nasceu, com a República de Weimar, em janeiro de 1919, em circunstâncias que serviam apenas para agravar as pavorosas fraturas da sociedade alemã. A esquerda radical sentiu-se traída pelos social-democratas, agora no governo. A extrema direita, os nacionalistas e o exército continuaram a sonhar com o passado autoritário, cunhando o poderoso mas falso mito de que não eram eles os responsáveis pela queda da Alemanha, mas os revolucionários amotinados que haviam apunhalado o país pelas costas exatamente no momento em que ele estava vencendo. Esse mito contribuiria para levar a Alemanha a uma outra guerra mundial.

A Primeira Guerra Mundial, de Margaret MacMillan