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25 de abril de 2019

Quando os canhões silenciaram, em 11 de novembro de 1918, o mundo estava bem diferente do que fora em 1914. Em toda a Europa as velhas fissuras nas sociedades, temporariamente empapeladas no começo do conflito, ressurgiram à medida que a guerra seguiu seu curso, trazendo ônus cada vez mais pesados. À medida que a intranquilidade social e política se espalhava, regimes velhos desmoronaram, incapazes de preservar a confiança de seus povos ou de atender às suas expectativas.

Em fevereiro de 1917, o regime czarista finalmente entrou em colapso, e o débil governo provisório que o sucedeu foi, por sua vez, derrubado dez meses depois por um tipo novo de força revolucionária, os bolcheviques de Vladimir Lênin. Para salvar seu regime, atacado por rivais políticos e por remanescentes da velha ordem, Lênin celebrou a paz com as Potências Centrais no início de 1918, cedendo grandes fatias de território russo a oeste. Enquanto os russos se engalfinhavam numa cruel guerra civil, os cidadãos subjugados dentro do Império Russo aproveitaram a oportunidade para escapar de seu domínio. Embora que apenas por um breve período.

A Áustria-Hungria desmoronou no verão de 1918. As dificuldades para conter o nacionalismo finalmente se mostraram insuperáveis. Os poloneses se juntaram aos que tinham recentemente se libertado da Rússia e da Alemanha para criar, pela primeira vez em mais de um século, um estado polonês. Tchecos e eslovacos se aliaram em estranho casamento para formar a Tchecoslováquia, enquanto os eslavos do sul da Monarquia Dual na Croácia, na Eslovênia e na Bósnia juntaram-se à Sérvia para formar o estado que ficaria conhecido como Iugoslávia. A Hungria, muito reduzida pela perda da Croácia e pelos acordos de paz após a guerra, tornou-se estado independente. Das outras Potências Centrais, a Bulgária viveu sua própria revolução, e Ferdinand, sempre “o Raposa” como era conhecido, abdicou em favor do filho. O Império Otomano também entrou em colapso. Os aliados ficaram com seus territórios árabes e a maior parte do que restava na Europa, deixando apenas a Turquia. O último sultão otomano saiu tranquilamente para o exílio em 1922, e um novo governante secular, Kemal Ataturk, assumiu o poder e criou o moderno estado da Turquia.

Quando os exércitos da Alemanha viram-se derrotados no verão de 1918, o povo alemão, mantido na ignorância do que realmente acontecia por Hindenburg e Ludendorff, que agora dirigiam o governo civil, reagiu com irritação contra todo o regime. Por algum tempo, enquanto marinheiros e soldados se amotinavam e comitês de trabalhadores se apoderavam de governos locais, pareceu que a Alemanha seguiria o caminho da Rússia. O kaiser, relutante, foi forçado a abdicar no começo de novembro de 1918, e os socialistas proclamaram uma nova república que, como se viu, conseguiu conter a revolução.

Embora os países vitoriosos tivessem sua parcela de revoltas — em 1918 aconteceram greves e manifestações violentas na França, na Itália e na Inglaterra — por algum tempo os antigos regimes se mantiveram no poder. Todavia, coletivamente a Europa já não era o centro do mundo. Esgotara sua enorme riqueza e seu poder. Os povos dos impérios, que de modo geral aceitavam ser governados pelo poder central desses impérios, inquietaram-se. A crença de que seus dirigentes estrangeiros sabiam melhor o que era melhor para eles se abalara irremediavelmente após quatro anos de selvageria nos campos de batalha na Europa.

Novos líderes nacionalistas, muitos deles militares que tinham testemunhado o que a civilização europeia era capaz de produzir, exigiram autonomia imediata e não em algum futuro distante. Os domínios “brancos” da Inglaterra concordaram em continuar dentro do Império, desde que dispusessem de autonomia crescente. Novos atores de fora da Europa agora desempenhavam papel de maior relevo no palco internacional. O Japão crescera em poder e confiança, e preponderava sobre os vizinhos. Os Estados Unidos agora eram uma grande potência mundial, e suas indústrias e fazendas cresceram ainda mais com a guerra. Nova York tornou-se o centro do mundo financeiro. Os americanos viam a Europa como velha, decadente e acabada — com o que muitos europeus concordavam.

A Primeira Guerra Mundial, de Margaret MacMillan