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26 de abril de 2019

Quando se fez a paz em 1918, John Maynard Keynes ficou contente por ter resistido a retirar-se para a tranquila irresponsabilidade de King’s College. Mas o fim da guerra não lhe concedeu o desencargo de seu trabalho público. Como um dos chefes da política britânica de guerra, em janeiro de 1919 partiu para a Conferência de Paz de Paris para assessorar o primeiro-ministro Lloyd George na estratégia de negociação.

Keynes tinha poucas ilusões sobre as conversações e se envolveu nelas com a mesma justificativa que havia usado para se engajar na administração da guerra: divertia-se por estar tão intimamente ligado aos assuntos do país. Sentia que o resultado seria mais justo e menos incivilizado — se não exatamente civilizado — se participasse. Tinha sentimentos de culpa por ter alimentado a máquina de guerra até aquele ponto e esperava expiar esses sentimentos assegurando-se de que o tratado fosse justo. Como expôs seu biógrafo Robert Skidelsky, “ele buscava uma forma de praticar um ato de reparação pessoal.”

A preocupação suprema dos Aliados era assegurar que “a Alemanha compensasse todo o mal causado à população civilizada dos Aliados e suas propriedades pela agressão da Alemanha por terra, mar e ar”. Os franceses, liderados por seu decaído primeiro-ministro George Clemenceau, eram os mais obstinados na insistência de que as nações derrotadas pagassem pela destruição física e humana que haviam desencadeado.

Mas os Aliados logo se encontraram em uma situação difícil. Quanto mais exigiam a confiscação dos ativos domésticos germânicos e dos investimentos no exterior, seu carvão e as indústrias do aço, sua marinha mercante e assim por diante, menos os alemães seriam capazes de lhes pagar somas anuais em dinheiro. As elites governantes de nações novas como Hungria, Polônia e Tcheco-Eslováquia que, como membros dos antigos impérios germânico e austro-húngaro, tinham enviado seus excedentes de bens para as capitais do império, diminuíam ainda mais a capacidade de pagar das nações conquistadas.

E havia outras complicações. Um resultado do conflito foi a revolução bolchevique na Rússia, que derrubara brutalmente os democratas mencheviques que puseram fim ao domínio do czar Nicolau II e fizera a paz com os Poderes Centrais. Se os Aliados não cuidassem de que as populações vencidas pudessem atender suas demandas, poderiam abalar tanto a democracia nas nações derrotadas, que o comunismo se espalharia para o Ocidente. De fato, nem bem o kaiser Guilherme II foi deposto em novembro de 1918, quando a derrota da Alemanha era vista como inevitável, o novo governo democrático foi desafiado por um golpe liderado pelos marxistas revolucionários da Liga Espártaco sob Rosa Luxemburgo.

Mesmo assim, os Aliados continuaram a criar condições maduras para extremistas. Enquanto brigavam entre eles sobre quanto cobrar do governo alemão em Weimar, continuaram a manter o bloqueio que levara à rendição alemã. Logo, um desastre humanitário engolfou Alemanha e Áustria, uma condição de miséria geral que forneceu as circunstâncias perfeitas para os revolucionários conseguirem apoio.

Keynes x Hayek, de Nicholas Wapshott