#779

29 de abril de 2019

Keynes, acreditando que as reparações se mostrariam desastrosas para a perspectiva de paz permanente na Europa, sentia-se cada vez mais infeliz. “Estou profundamente esgotado, em parte pelo trabalho e em parte pela depressão pelo mal em torno de mim”, escreveu para a mãe. “A Paz é ultrajante e impossível e não pode trazer nada a não ser infelicidade… Acho que fui cúmplice de toda essa maldade e loucura, mas o fim agora está perto.”

Ele escreveu para Duncan Grant, que se passava por agricultor para escapar do alistamento, que os líderes aliados “tinham a chance de adotar uma visão ampla, ao menos humana, do mundo, mas a recusaram sem hesitar.” Ele escreveu para o ministro da Fazenda, Austen Chamberlain, que “o primeiro-ministro [Lloyd George] nos está levando a todos para o pântano da destruição. O acordo que está propondo para a Europa a desorganiza economicamente e deve despovoá-la de milhões de pessoas… Como espera que eu assista a esta trágica farsa?” Chamberlain, que, uma semana antes, expressara a Keynes o “forte sentimento de que a continuação de seus serviços por ora é de grande importância”, não respondeu.

Keynes se retirou do Hotel Majestic, que abrigava o resto da equipe do Tesouro, e buscou refúgio em um apartamento junto ao tranquilo e arborizado Bois de Boulogne, no oeste da cidade. Ele sofreu um colapso nervoso e escreveu para a mãe. “Passo mais da metade do meu tempo na cama e me levanto apenas para reuniões com o ministro da Fazenda, [seu aliado em argumentar contra reparações punitivas, o marechal de campo da África do Sul J. C.] Smuts, o primeiro-ministro [Lloyd George]… Eu estive distintamente à beira de uma crise nervosa, na semana passada, e, sem gostar de forma alguma da perspectiva, voltei imediatamente para a cama.” Convencido de que muito pouco ainda poderia fazer para trazer sanidade ao tratado, Keynes renunciou, escrevendo para Lloyd George: “Devo dizer-lhe que, no sábado, estarei escapando para longe desta cena de pesadelo. Não posso fazer mais nada aqui… A batalha está perdida.”

Encolerizado pelo que vira e ouvira em Paris, Keynes decidiu fazer bom uso da experiência e, em duas semanas, se abrigara em uma fazenda de propriedade de Grant e a mulher, Vanessa Bell, em Charleston, East Sussex. Seu objetivo era, de forma calma, abrangente, impiedosa e, com frequência, divertida, expor o perigoso absurdo das pretensões dos Aliados.

Escreveu “As Consequências Econômicas da Paz” num ritmo impetuoso. Seu ponto de vista em geral era que as conversações de paz não eram nada disso. A volúpia da vingança e o desejo de ver a Alemanha permanentemente humilhada por provocar o que chamou de “guerra civil europeia” provavelmente causariam outro conflito mundial. “Movido por ilusão insana e amor-próprio temerário, o povo alemão derrubou as fundações sobre as quais todos nós vivemos e construímos”, escreveu Keynes. “Mas os porta-vozes dos povos francês e britânico correm o risco de completar a ruína.”

Keynes x Hayek, de Nicholas Wapshott