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30 de abril de 2019

Desde os anos 1920, Keynes era conhecido nos Estados Unidos como um economista que, em lugar de enterrar-se em teorias abstrusas, canalizava as energias para soluções práticas. Assim como na Grã-Bretanha, ele irrompeu no cenário norte-americano no fim da Primeira Guerra Mundial com As Consequências Econômicas da Paz, cuja publicação coincidiu com a campanha desesperada do presidente Woodrow Wilson para convencer o Senado a aprovar o Tratado de Versalhes. O tratado era contencioso porque, pela primeira vez, vincularia os Estados Unidos a um governo mundial, a Liga das Nações, fruto da imaginação de Wilson.

Embora fosse simpático aos objetivos pacíficos de Wilson em Paris, Keynes não resistiu a criticar o presidente por sua conduta majestática e seu endosso às severas reparações impostas às nações derrotadas. A pitoresca descrição de Keynes do piedoso Wilson em As Consequências Econômicas da Paz foi avidamente explorada pela imprensa americana, que saboreou o pretexto para infamar seu sitiado presidente com as palavras afiadamente cinzeladas de um tarimbado mestre do insulto. Keynes colocou Wilson em um imponente pedestal para, adiante, derrubá-lo. “Quando o presidente Wilson deixou Washington, ele desfrutava prestígio e influência moral em todo o mundo”, reportou. “Como as multidões das capitais europeias se espremeram em torno da carruagem do Presidente! Com que curiosidade, ansiedade e esperança buscávamos um relance das feições e da conduta do homem destinado à grandeza que, vindo do Ocidente, traria a cura para as feridas do velho pai de sua civilização.”

No entanto, o pacificador Wilson, inflexível, clerical e congelado na retidão moral, sucumbiu ao clamor Aliado por vingança. “A desilusão foi tão completa”, escreveu Keynes, “que alguns dos que haviam confiado mais ousaram falar disso… O que aconteceu com o Presidente? Que fraqueza ou infortúnio o levaram a uma traição tão extraordinária, tão inesperada?” Keynes explicou o que muitos norte-americanos haviam descoberto por si mesmos, que o presidente era “solitário e indiferente” e “enérgico e obstinado”. Acima de tudo, “não era um herói, ou um profeta; não era nem mesmo um filósofo; mas um homem generosamente intencionado, com muitas das fraquezas de outros seres humanos”.

Keynes ampliou o efeito de sua meticulosa demolição de Wilson descrevendo a impressão do presidente que ele próprio havia formado mediante contato próximo. “Sua cabeça e suas feições eram bonitas e exatamente como as fotos, e os músculos do pescoço e o porte da cabeça muito distintos”, escreveu Keynes. Mas logo ficou evidente que “ele não era insensível apenas ao ambiente que o cercava no sentido externo, ele não era sensível de forma alguma ao que o cercava”. Presenciar Wilson rodeado de homens de Estado astutos como o primeiro-ministro britânico Lloyd George e o premiê francês Clemenceau era como observar o presidente “brincando de cabra-cega”. “Nunca as instruções de execução de um programa poderiam ter sido seguidas por uma vítima mais perfeita e predestinada”, escreveu Keynes, cujo entendimento do que havia acontecido em Paris ecoou nos sentimentos norte-americanos como a natureza traiçoeira da “Velha Europa”, confirmando que os Estados Unidos haviam feito bem em ficar fora da guerra por tanto tempo e guardar uma distância segura da nascente Liga. Wilson, “esse Dom Quixote cego e surdo”, escreveu Keynes, “entrava em uma caverna onde a lâmina rápida e brilhante estava nas mãos do adversário”.

Longe de ser alguém que vem socorrer, Keynes julgava que Wilson, ao falhar em deter as reparações paralisantes impostas sobre as nações vencidas, ameaçou a nobre proposta de dar um fim justo “à guerra para acabar com todas as guerras” e tornou mais provável outra guerra catastrófica antes de muito tempo. A profecia logo se cumpriu. Quando A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda foi publicado, Hitler estava instalado na chancelaria em Berlim e seu colega fascista Benito Mussolini se pavoneava em Roma, ambos extremistas, beneficiários das miseráveis condições econômicas que o punitivo arranjo de Versalhes produzira. Para muitos norte-americanos, Keynes era um vidente lúcido cuja pena cortante havia esboçado uma visão de pesadelo sobre como o mundo realmente girava.

Keynes x Hayek, de Nicholas Wapshott